divagando por aí #10


ASSASSINATOS, CULPAS E PUNIÇÕES
imagem de autor desconhecido



Como se a matança coletiva do assassino daquela menina fosse extinguir pela raiz a árvore dos assassinatos. Ora, não seria, pois, tal matança ainda um fruto da mesma árvore? Agora comandada por mais galhos do que a outra. Se cada galho assassino que brotar criar junto com ele mais cem galhos, a árvore dos assassinatos está fadada a crescer com abundância e velocidade. E logo será a mais fértil da região, se espalhando pelas terras e ocupando novas áreas. Eis o vale de sangue e putrefação.

O cheiro de morte e as cores acinzentadas que se destacam nesse quadro não são privilégio de ninguém em especial. É justamente a falta de alguém, alguém ciente do que é, consciente do que somos, que pinta de horrores esse quadro.

Estamos ou não estamos preparados para dar a outra face? Contra o fogo usamos fogo? E ainda estamos nos tempos do contra? Quanto precisamos sofrer para reconhecer o sofrimento como fruto da nossa própria miséria? Quantos precisam morrer para por fim percebermos que quem está matando e morrendo somos nós mesmos? Quem está disposto a aceitar Hitler, a aceitar Jesus, Buda, Krishna, como simples manifestações da natureza exercendo as possibilidades do reino humano?

Eles não são nada além de nós. Eles sempre estiveram em nós. Eles surgiram e surgem de nós. O que somos afinal? Porque tantos revólveres engatilhados e pétalas de rosas oferecidas?

A natureza tem a forma humana como laboratório de refinamento, aperfeiçoamento e potencialização de energias. O ódio, a indiferença, a insensibilidade de Hitler, não são de Hitler, mas nossos. O que foram os grandes ditadores e assassinos além de nossa vontade manifestada? Colocamos o poder nas mãos dos outros e nos abstemos de opinar, agir. E mais do que isso: de aceitar. É tão difícil aceitar que este mundo, criado com tudo que chamamos de bem e mal, é fruto único de nossa criação?

Hitler só existiu porque nós o fizemos. A vontade de poder do povo, a sede de impôr suas diferenças e de fazer prevalecer suas regras, o ódio contido e louco para explodir: são esses os criadores de Hitler. A natureza não é tão má assim, nem tão boa. Ela simplesmente expressa os nossos desejos e necessidades. Quisemos criar Hitler para satisfazer nossas aspirações. Hitler nos ensinou sobre a forma que nos tratamos, relacionamos, respeitamos. Fomos nós que clamamos por Hitler, e o tivemos.

Da mesma forma Jesus, Buda, Krishna. O nosso carinho, respeito, companheirismo, fraternidade, espírito de igualdade, justiça, harmonia, criaram esses seres como símbolos, imagens visíveis do que somos e podemos ser. Jesus não é ninguém. Jesus não existe. Nós o criamos, nós o vemos, nós o estabelecemos como algo a ser visto, contemplado, seguido ou rejeitado. Jesus é tão somente um espaço-tempo que a natureza encontrou para expressar explicitamente nossa realidade dentro da dimensão que habitamos.

Assim, pois, como o assassino da menina. Seria ele alguém pior do que nós? Nem melhor, nem pior. Ele é nada mais nada menos do que nós mesmos. Vejamos bem quem somos sem nos identificarmos com essas cenas ou personagens. Estamos prontos para nos reconhecer, além do bem e do mal?

Mas se querem mesmo falar de assassinatos, culpas e punições, o assassino é aquele debilitado e desconectado que cometeu a crueldade de destruir uma vida inocente, ou os assassinos são aqueles indispostos a se mobilizar ou insinuar qualquer gesto em favor do amor, mas que na presença do ódio logo se mobilizam e se armam prontos para cometer crueldade ainda maior contra aquele a que chamam de cruel?

O que é mais cruel: matar uma menina inocente ou se fingir de inocente matando outro menino? Nenhum dos dois, obviamente. Ambos são cruéis. Olho por olho, dente por dente. Crueldade por crueldade, assassinato por assassinato. Se é essa a justiça dos homens, é essa a vida que escolheram ter. Mas onde reinar a justiça divina, a morte será divina, e a vida também.

Por que nos apegamos à morte da menina, se ela continua viva em nós? Por que queremos matar seu assassino, se ele continuará assassinando através de nós? Agora, pior do que se apegar ou querer matar, é continuar fechando os olhos para a luz que nos faz ver.


primavera uma vez #20


TRANSPORTE PÚBLICO

no coletivo
voltamos pra casa

todo santo dia
somos mais de um

nenhum de nós
faz meia viagem

pagamos inteira
no coletivo


conta outra #16


O SIGNIFICADO DA EXCEÇÃO
imagem de torres garcia



Acaba de me acontecer uma daquelas coisas mágicas. Aquelas que podem passar despercebidas, como se não tivessem valor nenhum, quando estamos desatentos. Bem, não foi o caso, dessa vez eu estava atento até demais.

Por falar em demais: será que a atenção excessiva, o foco centrado, não na parte nem no todo, mas na coisa em si, com todas as suas inerências e vicissitudes, pode chegar a ser algo prejudicial? Dizem que tudo demais faz mal. Mas essa regra se aplica à atenção? Se aplica ao respeito, à dignidade, à justiça? Se aplica à harmonia? Se aplica ao amor? Ou levar a regra a sério demais é contradizer a própria regra, e portanto melhor seria compreender o significado da exceção, antes de seguir em frente sem a noção do que as coisas são em sua essência?

Bem, tudo no seu tempo. Uma coisa de cada vez. Todas ao mesmo tempo e todas de uma só vez. O fato, o caso que eu relato, o que de contável me aconteceu, foi o seguinte. Estava eu aqui em minha paz, em casa, escrevendo mais um daqueles e-mails compartilhadores de idéias. Dessa vez me preparava para enviar o segundo de uma série despretensiosa, focada nas possibilidades possíveis.

No primeiro e-mail que enviei, escrevi: “Sim, é possível olhar a(s) coisa(s) de outra(s) forma(s).” E junto colei a imagem de La Escuela Del Sur, uma arte-mapa conceitual, colocando o nosso norte na parte baixa da América do Sul. Colocando, em resumo, o sul como o nosso norte. Uma simples inversão de perspectiva na forma como olhamos o mundo, a partir de onde vivemos e estamos, para percebermos que é tudo uma questão de ponto de vista.

Já no segundo resolvi enviar outra frase parecida, na mesma linha, que chegou do nada, enquanto eu nada fazia. Ela dizia: “É possível sim tomar conhecimento de outra(s) realidade(s) e trabalhar por ela(s).” Nesta eu ainda não havia colocado imagem. E enquanto pensava em que visual usaria para ilustrar a mensagem, resolvi colocar uma musiquinha pra embalar o movimento.

Dois cliques na pasta Musicalizando. Encontro categorias, ritmos, vertentes, sonoridades. Meio que no automático, sem demonstrar preferência, dou dois cliques em Étnicos & Regionais. Me deparo com uma lista de pouco mais de dez artistas, e como que por impulso, meio que sem pensar, escolho Fela Kuti. Sem nem ver direito a relação de músicas, clico na primeira que aparece na frente. E qual é o nome dela? “It´s no possible”

Qual é a possibilidade de um encontro conceitual desses acontecer? Qual é a probabilidade de uma contradição factual dessas ser percebida? Não vamos nos limitar aos números, nem as perguntas, mas somente constatar que há muita coisa acontecendo. E as coisas mais relevantes muitas vezes vêm vestidas das coisas mais bobas. Essa é a grande contradição, o grande encontro.

Estamos prontos para unir as duas metades? Vamos percorrer começo, meio e fim em cada passo do caminho?


tolice #41


CIRANDA

o bloco passa
o passar não

a folia nunca acaba
quem tem fim é carnaval

assim a dança é sempre
um sucessivo vai e vem

a mudança então não pára
hoje é dia de dançar


musinematura #6


O LEITOR : STEPHEN DALDRY



Um romance pode começar quando quiser, não há exigência para isso, é mais questão de disponibilidade. Já o drama, precisa de um motivo, uma causa, um ponto de partida, que às vezes pode se dar no meio de um romance. Em O Leitor vamos encontrar uma história dentro da outra. Um passado cruzando com um futuro disponível mais à frente. Recapitulações de uma história com duas vidas a contar.

1995, Berlim, Alemanha. Ao som de piano, um ovo é servido, depois um café, para um suposto café-da-manhã. Rápido diálogo, desentendimento, olhar pela janela e expressão de quem lembra do que passou. Logo depois chove bastante, mas não molha quem vai dentro do bonde. Com exceção dos que já entraram molhados todos estão secos. Um rapaz gripado decide se levantar da cadeira. Chega a hora de descer. Agora estamos em 1958, Neustadt, Alemanha Ocidental.

O filme volta no tempo para contar a história de Michael Berg (David Kross, na juventude, e Ralph Fiennes, na idade adulta), o rapaz que desceu do ônibus, com Hanna Schmitz(Kate Winslet), a mulher que ele vai encontrar logo a seguir. Michael tem por volta de dezesseis anos, é filho de uma família burguesa, tradicional, estável, é estudante, bem instruído e está começando a subir nos primeiros degraus da maturidade. Hanna é quase o oposto. Trabalha no bonde como cobradora, não tem família, mora sozinha num apartamento minúsculo e tem no mínimo o dobro da idade de Michael.

Mas não nos deixemos confundir com a aparente diferença entre os dois. A verdade é que cada um de nós tem uma razão de se encontrar pela vida, e com Michael e Hanna não é diferente. O Leitor começa quando Michael desce do ônibus, passando mal, sob uma chuva gelada de um típico dia frio. De repente ele entra num beco e vomita. Uma mulher aparece e ajuda. É Hanna.

Pouco tempo após iniciarem um romance, Hanna recebe uma promoção no emprego e se muda sem avisar. Para Michael, Hanna é o primeiro amor. Para Hanna, Michael é sexo e algo mais. Após anos sem se verem, Michael reencontra Hanna no tribunal. Ele como estudante de Direito, acompanhando um caso com a turma da universidade, ela no banco dos réus, acusada de crimes nos campos de concentração de Auschwitz.

O Leitor é um filme forte, duro, que mexe com as emoções. A frieza dos relacionamentos, a dureza das decisões, a tristeza das memórias. Medos e segredos. Um romance cheio de drama. Mas nada de exagero. O Leitor é um drama das histórias reais da vida, com seus altos e baixos, suas inexplicações e sincronicidades. Durante todo o filme fica a sensação de algo por completar, se concretizar, chegar a um fim, algo próximo do que podemos chamar dar certo.

“As sociedades pensam que funcionam por conceitos morais, mas não.” Baseado num livro de Bernard Schlink, dirigido por Stephen Daldry e roteirizado por David Hare (dupla que também fez o filme As Horas), O Leitor revela uma Alemanha que ainda sofre os efeitos do ex-regime nazista. O filme mostra que as vítimas do holocausto estão longe de perdoar seus algozes, e mais longe ainda de condenar os verdadeiros responsáveis pelos crimes. A culpa e a justiça são pontos tocados o tempo todo, com maestria. “O que você faria se você estivesse no meu lugar?” é a pergunta-chave por trás de toda a história apresentada no filme.

Apesar da atmosfera cinzenta e do clima pesado do filme, a beleza não fica de fora, e encontra espaço para se mostrar por trás de cada pequeno gesto de Michael e Hanna. Obras clássicas da literatura, como A Odisséia, As Aventuras de Huckleberry Finn e contos de Anton Tchekhov, são lidas por Michael, para agradar Hanna, fascinada pelo mundo das histórias. Por isso o nome do filme. O Leitor conta a história de um rapaz que traduz o seu amor em leituras para a amada.

Com certeza, o mérito principal de O Leitor é mostrar como a dor é algo pequeno perto do amor. Por mais que esse amor se mostre vez outra sob uma dura casca de insensibilidade. Um belo filme retratando os estranhos desenhos que a vida pode tomar. Como se dois destinos se cruzassem para nunca mais serem os mesmos.



"Por que não começa sendo honesto comigo?"


primavera uma vez #19


TRIÂNGULO

a cor
vem do amor

a ação
da intenção

o coração
do vai e vem


assim como se nada #13


CERTEZA
imagem de autor desconhecido



Cada vez o yoga está mais presente. Exposto na naturalidade de movimentos espontâneos. Soltos, epidérmicos e subcutâneos, em total certeza. Na tez certa de uma pele unida, interligada por um corpo consciente do que é. Por que não dobrar os braços até o seu limite? E permanecer lá junto com a respiração, completamente esquecido do que é tempo?

Pode ser que existam muitos métodos e escolas, mas pouco sei de uma tão fabulosa e instrutiva quanto essa simples e misteriosa escola da vida. Basta estar livre para aprender, desimpedido. As lições são dadas a todo instante. Estamos com os ouvidos internos abertos?

Abrir os externos é um bom começo. E as lições continuam vindo. Pode ser no chão ou em pé. Sentado, deitado ou de ponta-cabeça. Quem se importa com movimentos tão livres!

Ontem na volta da praia um gramado de um extenso canteiro que divide duas pistas (na Roberto Freire, pouco depois da rótula que vai pra Via Costeira, sentido minha casa) serviu de tapete para eu tentar um pouco mais do tal escorpião, que me fascinou desde que se mostrou em pessoa pra mim.

A experiência foi muito boa. O brincar em total liberdade. Um parar vez em quando, para descansar quando o movimento dos carros aumentava e a fila acumulava. Nesses momentos eu era uma atração mais interessante do que esperar o semáforo abrir.

É muito bom perceber que estamos em casa. Que podemos brincar, ser, e estamos livres. Que temos a vida como uma grande escola. Que somos livres inclusive para estarmos dispostos. Dispostos, cheios de vontade de aprender. Aprender humildade, simplicidade, companheirismo. Aprender harmonia, união, paz, amor.

Então num simples tapete verde, estendido em completa natureza, eu podia fazer o que queria. Inclusive não fazer. E como era bom se revezar: entre fazer e não fazer. Como era bom respirar. E ainda continua sendo.

A certeza, o yoga, o amor. Cada palavra pode querer dizer uma coisa, mas quando todas elas estão em função de um todo, o que vale é o que a unidade diz.

Qual é o nosso propósito? Ter isso cada vez mais claro, porque em cada ação é isso que vamos transmitir. Ou vamos transmitir o nosso propósito ou o esquecimento dele. Ou vamos expressar quem somos ou a sombra de nossas ilusões.

O yoga não permite escolha. A certeza muito menos. Quando se está fora do yoga, se pode escolher: "que tal yoga?”, “que tal não?" Mas quando se está no yoga, sem separatividades, sem noções limitadoras de dentro ou fora, aí não é mais possível escolha. Não há mais o que escolher. Como discutir com o que já está definido?

Quando surgir algo que antes podia ser visto como escolha, já não será escolha, já não poderá ser visto.

O yoga, a certeza, o amor: um objetivo mais nítido. Olhando pequeno, sem ver o caminho, pode até parecer que existem escolhas. Mas é como se nos fixássemos nas palavras quando há um texto inteiro a ser lido.

Não é porque fechamos a página agora e decidimos parar de ler que a história acabou. O verdadeiro livro nunca pode ser fechado. Se ele vai ser lido ou não, depende apenas de nós.

E se decidimos ler, não é por uma questão escolha. É justamente o contrário: vamos ler porque não temos escolha alguma.


tolice #40


SONHO LÚCIDO

quem tanto cansa
no raiar, amansa
no voltar, avança
no tentar, dança

balança e vai pra lá
se lança e vem pra cá

é dum brotar morto
é num seguir torto
é assim, quiçá, maduro
que se afoga um indeciso
na própria imensidão

já se vê o tempo passando
mas o nada nem pensa em ir

sorrir - diria um tolo
partir não é consolo
deitar
até amanhã

na vã tentativa de esquecer
sente a incoerência nascer
perde para ganhar aprender


sem tirar nem pôr #2


CADÊ A SEDA?

A noite cai e um grupo de jovens sentado ao redor de uma mesa debate à luz de velas sobre os termos mais apropriados (e os menos) para nomear as genitálias masculina e feminina da espécie humana.



“Isso aqui não é uma enciclopédia não, galera.”



nem todos têm título #4


só saio
quando tiver algum afazer
lá fora

lá fora
é fora de mim

quando estou em mim
estou dentro
estou centro

só entro lá fora
quando tiver algo a trazer


assim como se nada #12


SEJAMOS FRANCOS
imagem de autor desconhecido



A gente pára pra olhar a vida. E o que ela mostra, o que ela diz? “Veja aqui a sorte?” “Vem ser feliz?” Ou a gente não ouve nada, e portanto não sabe que ela diz? A gente pára pra olhar a vida?

Porque se a gente não pára pra olhar a vida, certamente não vamos saber que ela olha pra nós. E vamos seguir mais sozinhos, inseguros, temerosos, vacilantes e errantes, como se a vida fosse algo estranho a nós mesmos. Como se estivéssemos num campo de batalha, diante de uma guerra, ou num beco sujo, escuro e sem saída. O que parece ser uma coisa absurda e impactante demais para não ser percebida. E só quando for percebida, poderá então ser superada, transcendida, transmutada, e o que mais se fizer pertinente.

Vejamos então a vida. A gente pára pra olhar a vida? Veja a vida nos olhando, apreciando a bela obra. Mas não vemos a vida nos olhando. E por não vermos, talvez não estejamos vendo o que ela está dando pra nós. Talvez não estejamos vendo o que ela está fazendo, enquanto o que chamamos de vida é levada a sério, à risca, milimetricamente planejada nos papéis de uma sociedade falida, em um modo de vida que já foi.

O quanto a vida vem pedindo pra ser contemplada, observada, ou simplesmente olhada (no caso de primeiros encontros), com toda sua fluência, naturalidade, espontaneidade e despojamento! O quanto ela vem tentando se fazer perceber como um confluxo multicriativo, um holoprocesso retroalimentado, um transsistema unissincrônico!

Sejamos francos com nós mesmos. Nos reconheçamos ao olharmos no espelho. Reconheçamos essa imagem como a própria vida, em sua mais simples e singela atuação. Prestemos atenção ao que está por trás da capa, atrás da roupa, além da máscara. Sejamos francos com nós mesmos ao nos olharmos no espelho.

Você pode se espelhar no que chama de outro. Mas o espelho é você mesmo. Sejamos francos com nós mesmos e olhemos a vida. A gente pára pra olhar a vida? Se não paramos, pra onde vamos? Pra onde estamos olhando? Se não paramos pra olhar a vida, que sentido faz tudo isso, estas palavras, este momento, esta leitura ou este silêncio?

A vida está aí pra ser olhada, observada, contemplada. E quem sabe assim mostrar um pouco das suas cores, dos seus aromas, sabores, tonalidades e vibrações. A vida acorda todo dia e diz algo a si mesma. E diz isso em cada um de nós. Mas se a vida não é olhada, como vai ser escutada?

Então parar para olhar a si mesmo, é parar pra olhar a vida. Parar para olhar o outro, é parar pra olhar a vida. Porque assim como o outro é você mesmo, você mesmo é a vida.

Será que as coisas estão claras? Porque se não estão, se não mostram as suas caras, se não se fazem claras, talvez ainda não tenhamos acordado pra vida. A vida é simples, justa e humilde. Pode passar despercebida para alguém que está sempre procurando por mais, buscando cada vez mais quando já tem tanto.

A vida é tão simples e delicada, que pode ser comparada a uma flor. Mas como tem a força de um furação, ela leva tudo que encontra pelo caminho. Quem olhar a vida, vai ver que ela está sempre pronta pro agora, seja aqui onde isso for. Porque é na presença que ela nasce e morre. É nessa contínua respiração que ela se faz presente.

Temos uma vida inteira pela frente para olhar a vida. Se não olharmos, não tem problema, a vida é paciente, é a própria paciência, ou a ciência da paz. Quem já parou pra olhar a vida sabe. Sabe que olhou, sabe que viu, e sabe que a paz dela é puro amor.

Mas a gente pára pra olhar a vida?


tolice #39


CADEIRA DE BALANÇO

há tempos descobri
o mundo é meu templo

a fundo, adentro
contemplo meu mundo

contemplo com gula
contemplo insanamente
contemplo em demasia
contemplo amiúde

no templo percebi
profundo é o tempo

meu mundo, meu templo
contemplo e confundo


 
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