ÁGUA NA BOCA NÃO MATA A SEDE
e assim fez-se a cantiga.
sem saber, querer ou esperar.
andarilhando por lugarespaciais,
melodicamente entornada ao léu,
sem dó qualquer do que não há,
vestida nas mantas da ocasião,
temporalmente inerente ao sol,
entorpecida de inadvertências,
preparafraseada por si mesma,
vendo um lá como um ali aqui,
em tom e espírito inoportuno,
sob velocidade imperceptível,
atonitamente desconjugada,
balançada ao deus dará,
irrefreavelmente astuta,
concebida sem combiça.
o som é salivar,
o toque balança o céu,
o batuque é o grande truque,
os versos têm ritmos inversos.
e tudo sem quê nem para quê.
dançando compasso a passo,
compondo a música na dança,
encantarolando a melodia.
é saliva que não alivia.
água na boca não mata a sede:
potencializa, amplia, fomenta,
impulsiona, amplifica, estimula.
sim #1
tolice #2
PERGUNTAR NÃO OFENDE
elucidar a irrealidade
achar o real na ilusão
utopia ou possibilidade?
verdade ou fantasia?
imaginar a inconsciência
criar a imagem do crer
mentalidade ou demência?
incoerência ou sentido?
observar o pensamento
analisar o raciocínio
tolice ou discernimento?
experimento ou insanidade?
examinar a existência
interpretar o intelecto
loucura ou inteligência?
sapiência ou absurdo?
conta outra #1
ANDEI, ANDEI, ANDEI ATÉ ENCONTRAR
imagem de autor desconhecido
“Socorro”. Foi assim que ela me respondeu ao perguntar seu nome. Não fiquei muito surpreso: sua face tinha a notória expressão de quem pede ajuda. Mas de quem pede ajuda pra si mesmo, de quem se sabe o mais capacitado pra resolver as próprias questões. Ela sabia que dependia exclusivamente dela. E muito. Ela exalava necessitude*. E alguma virtude rara eu pude ver naquele rosto esmagado pela própria estrada. Mas não me pergunte qual, porque virtudes raras não têm nome e nem merecem ter.
Da primeira vez que vi Socorro mostrar seu desespero eu sinceramente não lembro. O que lembro claramente é dela caminhando, confiante, decidida, rumo a um destino passageiro. Ir ela ia sempre. Parecia empenhada no seguir, tensa e compenetrada, superestimulada por um próprio propósito proparoxítono que não dava brecha pra tropeços. Uma disposição selvagem, intestinal, com uma vontade e um jeito único, independente de previsão do tempo. Marchava feroz pela selva de pedra fazendo de seus pés um par de botas que se camuflavam na lama dos dias. E como ela andava. Nem o chão sabe o quanto ela andou. Seus passos não mentiam, brotavam. Seu caminho não parava, fervia. Enquanto olhar pra frente distraía o movimento.
Não importava em que lugar da cidade eu estivesse, ela sempre esteve lá. Chegava antes de mim, às vezes depois. Partir era sua especialidade. Repartir talvez seu compromisso: o possível fator originador de toda essa andança sinfonicamente peculiar. E eu, sem saber de nada, também estava ali, presente, acompanhando, compartilhando de perto o desenrolar de uma história muito maior do que eu. Pode me chamar de observador, prazer. Socorro já não estava no mesmo lugar. E o mais curioso: eu já sabia que iria encontrá-la novamente.
No caminho de casa, depois de um dia de trabalho cansativo na agência: “Socorro!” Indo à universidade, pra uma aula de um grupo de estudos bacana focado na transpessoalidade: “Socorro!” Atrasado pra uma reunião no meio da tarde, onde a última coisa que eu poderia fazer seria chegar atrasado: “Socorro!”. Depois de uma cervejada, retornando na madruga, ao som de Fixing A Hole: “Socorro!” O que eu podia fazer? Nada.
Sei que nada é por acaso, coincidências não existem, portanto. Tudo surge de uma resolução prévia, um destino criado em conjunto, simultaneamente. Onde cada um influencia in ou conscientemente, mas influencia. E decide mutuamente o andar da carruagem, que não é só feita de abóbora não, tem feijão e muita coisa nesse prato. Mas desde quando eu venho criando essas coisas sem saber? Como não me toquei que eu era co-responsável por tudo isso? E por que logo ela: Socorro?
Estamos todos pedindo ajuda, não podemos negar. Em cada olhar que espera ser correspondido, em cada sorriso lançado ao mundo, em cada gesto, do mais desintencionado ao menos benevolente, somos necessitados, todos, sem exceção. Que feche esta janela quem nunca precisou de ajuda. Ou então que precisou e ainda precisa, mas prefere sofrer ao lado de um orgulho que sabe se fingir de força e amor-próprio a pedir o amor e a compreensão de um semelhante. Até quando vamos nos negar a engolir esse pedido de ajuda?
Todas as vezes que encontrei Socorro eu sabia que um dia eu iria conhecê-la. E o melhor: sem um porquê lógico, fácil, satisfatório, aniquilador das tão bem-vindas dúvidas. Que prazer é se submeter à incerteza do não saber exatamente de onde viemos e para onde vamos, desde quando e porquê. É nesse passo, em ritmo de tanto a saber, na consciência do saber nada, em meio a um mundo de aprendizados novos e incalculáveis, que me deparo com Socorro como mais um dos meus reflexos que perambulam por aí.
Hoje não resisti. Não teve como evitar. Em nenhum outro momento encontrei tanta aproximação e possibilidade de perguntar quem ela era. Negligenciar a oportunidade era a última coisa que eu deveria, e disso eu sabia bem. “Ei, espera aí!”, falei ao vê-la a cinco metros, caminhando à minha frente, no instante exato, estranho, inusitado, em que saía do meu trabalho. Ela olhou pra trás sem interromper o passo, mas diminuiu a velocidade para esperar minha voz alcançá-la. Contei que sempre a via andando por todos os lugares, sem restrição, que achava aquilo intrigante, diferente, interessante.
Ela pareceu muito sábia. Pelo menos seu silêncio e obstinação no próprio trajeto demonstraram grande sabedoria. Ela também pareceu gostar de saber que eu sabia que ela fazia das ruas metade da sua vida. Quando olhei pro rosto frágil e enrugado de Socorro e perguntei por que ela caminhava tanto, ela me disse com a fisionomia de quem acredita no inexplicável e a ironia de quem conhece o relevo das estradas que nunca atravessou: “Você tem uma sugestão melhor?”
* Necessitude [Do bra. necessidade + vicissitude] S.f. 1. Qualidade de algo ou alguém que não precisa de nada além do básico, mas tem a capacidade de desprecisar no durante das circunstâncias, em benefício de despropósitos e inutilidades desconhecidas e inexperimentadas.
fala que eu te escuto #1
TEMA: TRABALHO E SUBMISSÃO
"Por que toda vez que o cara chega no trabalho se sente um pouco doente?"
Porque os ambientes de trabalho são projetados para nivelar as pessoas por baixo, amputar suas diferenças, ignorar suas necessidades e aspirações, bem como uniformizar seus ideais e idéias. Tudo em benefício de uma suposta produtividade, que ironicamente pouco leva em consideração as pessoas responsáveis por ela.
"E por que todo chefe tem um funcionário que manda nos outros?"
"Alguém tem que fazer o trabalho sujo", responderia um dos subalternos de Don Corleone. Não é fácil pra ninguém dar ordens descabidas, amendrontar os funcionários, cobrá-los desnecessariamente, encher seus respectivos sacos e submetê-los às mais diversas injustiças, imposições, normas e padrões de conduta.
É por isso que quem está no poder elege alguém para fazer as tarefas negativas, para não sujar a própria imagem perante os funcionários e sair limpo dessa história, como alguém que na pior das hipóteses garante o meio de vida do empregado.
"De que forma posso agir para mudar esse quadro crítico?"
Dentro de tanta hostilidade e desconsideração com a pessoa que somos (levando-se em consideração aí o valor, a singularidade, a representatividade do cargo de cada um), nos resta mobilizar nossos colegas de profissão, bem como todos os outros assalariados, a se movimentar e tomar atitudes isoladas, independentes, revoluções moleculares, afim de cooptar através do contágio novas personas dispostas a fazer um mundo melhor. Ou seja, vamos utilizar as estruturas corporativas para injetarmos nosso mais doce veneno e minar aos poucos toda esse esquema violento que suga nosso bem mais precioso: a energia.
Precisamos botar ao chão essa estrutura de hierarquização, de trabalho excessivo e escravo, de desnecessidades e irrealismos além da conta, e de toda essa mentalidade mecanicista que prega a necessidade de nos aperfeiçoarmos constante e desnecessariamente, árdua e incessamente, como se fôssemos ou pudéssemos ser máquinas, e o pior, máquinas que rendem cada vez mais, que dão cada vez mais lucros e nunca, nunca, podem nem devem dar defeito: um raciocínio tido como lógico porém ilógico na prática, que sem dúvida alguma não deveria ter durado muito mais do que Descartes durou na Terra.
Lembre-se sempre: competência não é subserviência. Que essa revolta continue e façamos parte dela. Afinal, a vida é uma tela onde você escolhe entre ser personagem ou paisagem.
espelho, espelho meu #1
GERAÇÃO LIPO
A quantia que a indústria da beleza e da moda investe em propaganda somada ao que a grande mídia dissemina em sua grade de programação explica a decadência espiritual e a frustração coletiva da sociedade atual.
tolice #1
ITINERANTE
Se todo passar de tempo
é um deslocar,
se todo deslocar
é um seguir no tempo,
se todo seguir
é um passatempo sempre,
então todo tempo
é sem fim uma viagem,
um viajar passageiro
que jamais passará
e assim será
enquanto houver viajante.
