musinematura #5


BARO : HABIB KOITÉ & BAMADA



Meio rumba, meio mambo. Meio misto de mulambo com escambo. Meio cravo num campo de rosas, meio escravo em total liberdade. Meio favo coberto de mel. Baro é o instrumental de uma ancestralidade viva, rebuscado como palavra escrita nas folhas do papiro e renitente como pinturas rupestres na pedra da caverna. A lanterna de fogo, a grande tocha, iluminando a rocha gigante que serve de palco para os descendentes do ontem criarem o hoje.

Diretamente de Mali, na região noroeste da África, para todos os ouvidos sintonizados na freqüência do planeta música. Não há como passar despercebido. Com uma sonoridade que se espalha audição adentro em direção aos confins mais absolutos da matriz perceptiva, Habib Koité & Bamada nos levam para uma viagem rítmica pelas raízes do nosso próprio ser.

Frutas, sol, árvores, vento, água. Paz, alegria, diversão, contemplação. Paralelo sonoro de imagens decoradas com a abundância de um olhar para o orgânico. Um mundo com tempo de sobra para celebrar a vida. Uma vida com sobra de espaço para preservar o mundo. Quantas associações positivas podem ser feitas ao escutar Baro? Certamente uma pergunta sem resposta frente à infinidade de caminhos e à infinitude de sentimentos que sua música é capaz de despertar.

Estamos tratando de flores, pérolas e cristais. A resplandecência de Habib Koité se mostra em cada acorde, ritmo e faixa desse exótico disco, composto com singular destreza e exatidão. Não há como tirar nada de Baro. Todo seu conteúdo se encontra em total harmonia, milimetricamente concatenado para formar um retrato sonoro da perfeição.

Sábios são os que reconhecem a natureza como mãe dos sons. Esses se transformam em pais, e usam os sons para recompor a natureza, reformando as formas, redefinindo as definições. Mas tudo no campo da instrumentália musical. Em Baro, Habib Koité & Bamada deixam registrada a certeza de que o homem está cada vez mais perto do encontro com si mesmo.

De canção em canção, um salto. E num ponto alto do disco, surge Baro, faixa sete, tema da obra, estrelando e ilustrando maravilhosamente bem as intenções de um grupo que se dedica unicamente a expressar a vida. O que é belo há de ser cantado, já dizia o poeta popular. Sabendo por experiência que o único lar real é o mundo, e tudo que o rodeia é pura matéria-prima inspirativa para uma nova canção.

Escutar Baro dá sorte. Vai dizer que treze faixas super harmonizadas reverenciando as grandezas do universo não são um bom presságio? Batoumambe, Kanawa, Wari, Sin Djen Djen, Cigarette Abana, Woulaba, Baro, Sambara, Roma, Tere, Mali Sadio, Takamba e Sinema Denw.

Flautas fantásticas, violões magníficos, percussões monumentais. Habib Koité & Bamada merecem o devido reconhecimento pela produção de um disco tão repleto de qualidades. Mesmo listando todos os adjetivos que a nossa escrita tem à disposição, ainda não há condição de definir com verossimilhança os movimentos da dança que Baro faz acontecer.

Ainda assim, alguém pode se atrever a dizer que Baro é um convite ao silêncio. Aquela pausa na fala e no pensamento que permite trazer sem obstáculos para dentro o encantamento melódico provindo de fora. Tipo um lugar onde nada demora, porque tudo é parte do mesmo tempo. Sem documentos, ressentimentos ou julgamentos, Baro é simples brincadeira musical levada a sério. A trilha sonora do encontro entre o mistério e a luz.



Batoumambé // Baro


primavera uma vez #17


MUDANÇA DE PLANOS

me pego pensando
no valor de um poema
e chego a outro tema
talvez mais profundo

cogito a incerteza
de cada interpretação
frágil por natureza
sempre além da razão

a dimensão do sim
o inevitável não

toda conjugação
alinhada em versos
disposta em prosa
maravilhosa

tudo que brota então
feito madrugada
ou sábados de folga
quando somos liberdade


divagando por aí #7


A NATUREZA DO AMOR
imagem de autor desconhecido



De onde vem a pequena aranha que encontra descanso entre os livros que repousam entre os vasos de plantas que relaxam em minha casa? Da janela que esteve fechada por uma semana enquanto eu viajava? Da porta que ninguém abriu durante o tempo que estive fora? Do ralo tampado na pia da cozinha ou do ralo vedado debaixo do chuveiro?

A natureza é criada por si mesma. Sem janela, porta, ralo, ela cria outros meios para que a aranha alcance a vida. Mas não é a aranha que alcança a vida, e sim a vida que alcança a aranha. Observe os jarros de planta. Observe os livros. Quem colocou o ovo da aranha ali? Estamos falando do primeiro ovo de aranha. Quem pôs o primeiro ovo de galinha? A gente já sabe que não foi a galinha. Porque a galinha e o ovo não significam nada se não estiverem inseridas num contexto.

Em que contexto o ovo está inserido? É como o mofo que surge e ocupa as cadeiras vazias que seguem sem ser usadas. Quem pôs o mofo aí? Quem pôs o ovo ali? A aranha nasce para satisfazer uma necessidade da natureza. A natureza é autocriativa, autoorganizante, autosubsistente, por isso se expande em tantas formas e se contrai numa forma única, de acordo com sua necessidade de autoexistir. A natureza existe e se empenha em existir. A necessidade da natureza é ser. A natureza desse ser é amar.

Pode ser difícil entender o que o amor tem a ver com a aranha. Mas não estamos aqui para facilitar as coisas, como já percebemos. Cada dificuldade tem sua razão de existir. Assim como cada ovo de aranha tem seu propósito de acontecer. Imagine o ar, o ambiente, a temperatura, a luz, e todas as diversas invisibilidades que nossos sentidos não captam. Imagine todos esses elementos interagindo, coexistindo, interligados uns aos outros pelas redes que os conectam.

As relações entre as formas de natureza dão forma a novas formas de natureza. A pergunta “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?” tem resposta. O ovo veio primeiro. Mas quem pôs o ovo? O ovo se pôs. Para não dizer: a natureza se criou. Vejamos bem que as aranhas põem ovo, tal qual as galinhas. Mas vejamos também que elas não são as únicas a pôr, afinal se fosse assim, elas nunca teriam sido postas. Para a aranha ser posta aqui a natureza criou o ovo. Para o ovo ser criado existiu uma necessidade da natureza.

Que necessidade da natureza é essa? O que o ovo tem a ver com as plantas, o que a aranha tem a ver com o ambiente, o que a galinha tem a ver com o amor? Precisamos respirar e ter calma se quisermos entender. Na incapacidade de manter o foco centrado e a concentração atenta não há como se entender nada. Esse é o tipo de realidade em que a natureza não tem necessidade de criar ovos.

A aranha nasce para satisfazer uma necessidade da natureza. A natureza está comprometida com a autoexistência. A autotransformação faz parte disso. As mil formas que ela assume também. Digamos que existe ar, existe terra, existe luz, existe água, existem plantas, existe uma certa temperatura, existe uma certa situação, existe uma certa relação: existem ovos. Ovo não é uma palavra nem um conceito. Ovo é a possibilidade de geração de uma nova formação. Cada formação surge para preencher uma lacuna. Cada lacuna surge na medida em que a natureza se movimenta.

O movimento da natureza é parte intrínseca da manutenção de sua unidade indivisível. Sua capacidade de se expandir e contrair, criar e destruir formas, gerar ou extinguir aranhas, está relacionada com sua necessidade de autoorganização. A natureza se autoorganiza e autoconstrói à medida que se movimenta. A vida é a natureza do movimento.

A natureza da vida é a harmonia. A natureza da harmonia é o amor. Mas qual é a natureza do amor? O amor é a própria natureza.


tolice #36


DE PASSOS ABERTOS

entre um verso e outro
das palavras que nós somos
me contento satisfaço delicio
por compartilharmos desse tempo

a beleza de recriar
reinventar novos momentos
é a força que nos move e sustenta

enquanto formos sentido
tempestades de vontade
significados insaciáveis
enchentes de pensamento
estarei onde o agora está
no eterno ponto de partida


seja como for #1


Tenho nesse corpo recente uma espécie pulsante de vontade molhada e curiosa meio que predestinada a mergulhar no desconhecido mar que ela representa pra mim. Sou quem quer boiar sem precisar do nado, nadador que nada tanto quer, mas que respira certo da fartura flutuante com que a própria presença me presenteia. Desbotada dos romances infantis e ilusórios essa idéia aparenta experiência no descobrir de cada navegar. Flui então com a corrente sob o comando da maré que guia os fatos onde insisto em me perder como tesouro, afundar como pedra e boiar como espuma.


quem riscou minha revista #2




Sua ligação é muito importante pra nós.
Aguarde só mais um minuto.
Já vamos atendê-lo.


falando nisso #6


sou ar de vênus
libra ascendendo em sagita
com a lua lá em áries


assim como se nada #10


ENQUANTO O SILÊNCIO NÃO CHEGA
(OU: VINTE E OITO BARBAS)

imagem de autor desconhecido



As coisas andam como sempre por aqui. Aquela mudança na superfície, mas o solo continua o mesmo. Digamos que estou tentando inaugurar uma nova era na minha vida, já que acabo de adentrar a casa dos 28, nesse calendário vigente. Como 28 é bastante representativo numericamente, pra mim, quando observo a realidade de uma ótica astrológica, creio que faça todo sentido tudo que venho vivendo e vem acontecendo.

28 do ciclo lunar, do menstrual, e de alguns outros ciclos. Dizem na astrologia grega que o ascendente começa a ganhar corpo e se manifestar mais intensa e fluentemente nos arredores dessa idade. A astrologia maia, por exemplo, divide os anos em 13 meses de 28 dias, formando um calendário mais regular, conectado e pertinente. Sobre os 365 dias, eles também têm. Para isso existe um dia extra, fora dos meses do calendário, que funciona como uma pausa entre os anos, chamado dia fora do tempo.

Mas há controvérsias, como era de se esperar. Alguns dizem que esse papo de ascendência do ascendente no intermédio dos 28 não tem nada a ver e tal influência existe irrestritivamente desde sempre. Outros falam que a astrologia grega vai perder lugar e a maia vai começar naturalmente a se instituir definitivamente como a vigente a partir de dezembro de 2012. Eu, honestamente, acredito em ambos, concordo com os dois. Devo admitir e repetir: todos têm razão.

Mas a mudança é maior. Parece que cada vez mais estou fora das agências de propaganda. Como se fazer anúncios fosse passado. Não que eu não faça mais meus freelas, eu faço. Eu trabalho com as agências, elas pagam bem, gostam do que faço, realizamos ótimas parcerias. Mas tudo à distância. Nunca dentro dos regimentos dela. Porque cada vez mais estou fora. Fora de horários formatados. Fora de roupa de publicitário. Fora de dias e dias sentado numa cadeira em frente a um computador dentro duma sala com ar condicionado.

Não que eu não possa ser robô. Ou que não possa respirar quando necessário o ar poluído de um ambiente viciado. Como eu disse, se preciso eu vou. Também sento e crio aqueles textos para falar de alguém ou de alguma coisa. Não há nada de tão complicado em fazer isso. Às vezes é até fácil demais, mas à distância. Porque cada um de nós merece ser dono do próprio tempo. Do próprio nariz. Do ar que respira. No lugar de ser comandado, estar no comando. Ao invés de receber ordens, dialogar. Estar no lugar certo, instituir o próprio decreto: é isso que significa andar com os próprios pés.

Voltando às mudanças, são muito mais de 28. Mas não vou perder tempo relatando elas aqui. Até porque não sei definir bem como essas mudanças se fazem presentes. O que posso afirmar é que cada vez estou menos preso a este lugar. Estou me preparando para explorar mais o mundo. Preparação financeira antes de tudo. Dinheiro é importante, mas vontade é mais. E depois, horizontes, espaços sem fim de imensidão absoluta. A exploração ininterrupta dos reinos invisíveis. Jornadas incríveis em direção ao vazio.

Comecei com o Brasil e a América do Sul. E pretendo continuar pela região. Há muito chão a conhecer pela minha vizinhança. É por aqui que vou chegar ao lugar onde o silêncio reina. A busca pelas lacunas nas entrelinhas do continente sulamericano. A necessidade irremediável de se aproximar do óbvio. De se aprofundar no novo para ressurgir no velho. Exatamente como deve estar escrito no evangelho.

Na realidade, se for pra falar bem a fundo do caso, eu diria que estou em um processo de entrega. Entrega sem destinatário e sem remetente. A entrega mais desregrada que eu conheço. Não é uma questão de apreço por um comportamento tão destoante, mas antes de sintonia perfeita com sua representatividade dentro da plataforma experimental. Experiência tal que denominamos existência. Nada mal encontrar um caminho de luz no meio de tanta escuridão.

Sinto que tenho que aprender muita coisa. E desaprender com certeza. A natureza é o objetivo maior. A firmeza da conduta determinada pelos movimentos flexíveis do destino. O vento aponta para a sorte. Meu norte está no sul. Eu me dedico a cada um desses aprendizados de um jeito bastante pessoal. E realmente distante do modo de vida predominante. Exatamente o que eu quero e busco. Até o brusco faz parte disso. Isso que parece cada vez ficar mais claro. Mesmo que envolvido por um ar de confusão.

Por outro lado eu cultivo o interesse pela linguagem. Corporifico uma vontade incessante de comunicar. Com palavras, antes de tudo. Não fico mudo um instante, exceto meditando. Eu ando sim com essas idéias de meditação. Um pouco de ação ao contrário faz bem pro lado do avesso. O lado inverso anda carente de vazio. Anda doente de preenchimento. Por isso confesso que não demorarei tanto. Adianto transparentemente meus planos, como quem avisa ao universo que nada pode impedir mais um dia de nascer.

Estou observando esses cenários que crio. Vendo quais são relevantes e quais não. Como a história dos 28. Nada além de um símbolo, um signo. O importante é pra onde o link aponta. Qualquer internético sabe disso. Então olho a mudança e me aproximo dela. Mas quanto mais próximo chego, mais ela se distancia. É como comer uma melancia que nunca pára de crescer. E que quanto mais você come, mais fome dá. Pra você ver como o vazio pode alimentar.

E pra completar: tudo não passa de uma tentativa de dialogar com a vida.


para um mau entendedor #4


elevar
me tornar leve
de modo que me eleve
até levar a um lugar elevado
como um alto salto de elevação

elevar
me tornar leve
de forma que eu releve e revele

elevar
me tornar leve
para eu levar a vela relevadora
e velar pelas revelações


+


:: Leve
De pouco peso. Que recebe ou leva pouco peso ou pressão. De pouca densidade. Que se movimenta com desembaraço, agilmente, à solta. De forma delicada, delgada, graciosa. Que mal se percebe pelos sentidos. Indistinto, tênue, ligeiro, suave, delicado. Pouco carregado. Quase imperceptível. Insignificante. Sem importância, sem gravidade. Aliviado, desoprimido. Que agasalha pouco. De fácil digestão. Parco, sóbrio, frugal.

:: Elevação
Ascensão, subida, levantamento. Ato ou efeito de elevar(-se), de ascender a nível ou posição mais graduada ou importante. Ato de elevar, de dirigir para o alto. Distinção, nobreza, grandeza. Altura que uma coisa atinge ao se elevar. Alta, aumento, subida. Eminência de terreno. Ato de elevar (um número) a uma certa potência. Momento da missa em que o sacerdote católico eleva a hóstia e o vinho depois da consagração. Ângulo vertical entre o satélite de teledifusão e o plano horizontal, que determina o ajuste vertical da antena de recepção.

:: Revelação
Ato ou efeito de revelar(-se). Entre os cristãos, ação divina que comunica aos homens os desígnios de Deus e a verdade que estes envolvem, sobretudo através da palavra consignada nos livros sagrados. A doutrina religiosa revelada, por oposição àquela a que se chega pela razão apenas. Descoberta reveladora de um fato que produz sensação, ou de uma qualidade ou vocação numa pessoa. O fato ou a pessoa assim descoberta. Divulgação de coisa ignorada ou secreta. Processo que torna visível a imagem latente de uma emulsão fotográfica impressionada.

:: Vela
A pessoa que está de vela ou vigília. Peça cilíndrica, de substância gordurosa e combustível, com um pavio no centro a todo o comprimento, e que serve para alumiar. Peça que produz a ignição nos motores de explosão. Peça cilíndrica, oca, de material poroso que impede a passagem de partículas, bactérias, em filtro para purificar a água. Qualquer unidade de medida de intensidade luminosa. Peça de lona ou de brim destinada a, recebendo o sopro do vento, impelir embarcações ou movimentar moinhos.


divagando por aí #6


SAUDADE DAS CRIANÇAS QUE NÃO FOMOS
imagem de autor desconhecido



Não sei quando começou essa história, mas do jeito que a coisa vai, está cada vez mais difícil chegar a um final feliz. Tudo porque hoje todo e qualquer sinal de criancice é, lamentavelmente, condenado, combatido e erradicado desde cedo. Aquelas brincadeiras de papai-mamãe, de médico, de polícia e ladrão, já são um sinal da maturidade aflorando antes do tempo, um aviso de que quase todo rastro de infância se foi e estamos mais é querendo ser grandes. Quem não lembra da época que éramos chamados de crica por não fazermos o que os maiores faziam. E mal havíamos perdido o cheiro de xixi na calça.

É uma imposição incontrolável para a criança crescer prematuramente, ser obrigado a ser um que ainda não é. Não fosse uma imposição, talvez fosse até bom. Caso fosse um processo que adentramos espontaneamente, sem qualquer pressão ou influência exterior. Se por exemplo fosse como uma autêntica busca de evolução em plena e total relação com o papo de abandonar cristalizações, lapidar a pedra para chegar ao diamante, coisa e tal, tudo bem, mas não é e nem chega perto. O caso não passa de mais uma imposição, um reflexo barato e batido de uma sociedade doentia desde o berço, que desde os primeiros dentes perdidos começa a maldizer o ser criança em detrimento de um suposto adulto futuro adestrado exemplar. Ah, vai!

Tudo começa na escola da repetição, onde aprendem a passar um batom na boca, fumar um cigarro, dar um escarro ou coçar o ovo. Aprendem tão bem a reproduzir os adultos, que rapidamente avançam para novas disciplinas: exploração de coleguinhas, preconceito, humilhação, chacota & chicote. E assim o inconscientezinho coletivo e as estruturas sociais de controle e poder vão desestabilizando e modificando quem ainda não está dentro do esquema é-por-aqui-se-vai-é-assim-que-se-faz-e-vê-se-não-discuta, imposto ferrenhamente a todos os filhotinhos. E vale salientar: tudo realizado com o triste consentimento de seus ignorantes, coniventes e desatentos pais, que, para fins de franqueza e informação, já estão quase que totalmente perdidos e distantes da salvação.

Nesse envenenamento coletivo que a nossa criançada é submetida em ritmo maquinal e escala industrial, a maioria acaba em um desses dois destinos: ou apodrece, essa é a verdade e a palavra, estraga, degrada, vira lixo, matéria morta, sem antes sequer ter a chance de amadurecer, ou segue fadada e condenada a ser mais um pontinho na multidão de Marias, que vão com as outras, dia após dia, desde o primeiro até o último dia que rastejam na Terra.

Ser criança é um privilégio e uma experiência indispensável que pouca gente tem acesso. Quem não tem, das duas uma: ou dá a sorte de ser ajudado por uma alma bondosa, ou entra na fila quilométrica dos que estão esperando para tentar outra vez.


primavera uma vez #16


SAÚDE

espirra de lá
que eu espirro de cá
e atchim a gente contamina
o mundo com reciprocidades


sem tirar nem pôr #1


DECOLAGENS & ATERRISSAGENS

A curta vida de um inseto que logo após sair do ovo cresce rapidamente e se vê fazendo parte de uma família de pilotos. Uma vida resumida a realizar vôos rápidos de reconhecimento ou missão, testando e experimentando as fragilidades da gravidade. Durante a aventura ele aprende a dividir espaço e serviço com a grande família, membros unidos que se intercalam nas tarefas e compartilham o trabalho justamente entre todos.



"Trabalhamos em prol do bem comum."



tolice #35


POUCARIA

Observe o pouco que falta para daqui a pouco.
E então, depois de um pouco, todo pouco que se foi, deixando, pouco a pouco, bem pouco para contar história.
Mas esse pouco é pouco mais do que se possa pensar que seja, é um pouco demais que excede, sucede o excesso, estende o extremo.
Um pouco que tampouco é outro desses poucos que se apoucam por aí.
O pouco falado aqui é um pouco maior, um pouco fora da realidade, um pouco descontextualizado, torto, gordo, largo, forte, farto, um pouco que chama-se assim apenas por não ser ainda mais, sendo e parecendo pouco quando é, no mínimo, muito.
O pouco é muito: muito pouco do muito que o pouco é.


 
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