conta outra #14


NA RAPIDEZ DE UMA NUVEM
imagem de autor desconhecido



Meia-noite. Ele puxa a cadeira, senta e liga o computador. Abre um novo documento em branco do e começa a pensar numa idéia pro conto que nunca vai acabar de escrever. É a quadragésima quinta vez que ele está começando. Do mesmo jeito, sem pôr nem tirar. Cada peça em seu devido lugar. Ele começa desmancha, e começa a montar tudo de novo.

Se levanta da cadeira para ver se pôs um ovo. Mas nada. Tudo ainda é como antes. Alguns pensamentos alucinantes sobrevoam sua cabeça. Ela pensa e alucina. Pensa na chacina que ocorreu naquela igreja. Lembra da menina que encontrou naquela festa. Um tapa mata o mosquito em sua testa e testa mais uma vez sua paciência. Ele não presta muito atenção no que pensa, por isso já esqueceu.

Ele pensa que precisa de um personagem. Então começa por isso. Que tal um rapaz que não fica em paz enquanto não termina uma história? Não, essa parece muito louca. Como a voz dele está rouca vai ficar ainda mais difícil. E se o rapaz pular de um edifício? Não dá certo, termina no começo. E se ele mudar de endereço e de nome? Não cai bem, sai do campo de visão. E se ele continuar ali sentado em frente ao computador pensando na idéia pro conto que nunca vai acabar de escrever?

Ele resolve fumar um cigarro. É sempre bom se matar aos poucos. E essa sensação de gradatividade é inspiradora. Talvez ela dê uma idéia. Um cigarro acaba rápido. Ainda mais desses industrializados. Senta na cadeira e levanta para ver se o ovo apareceu. Faz isso por mais de três vezes consecutivas. Nas próximas tentativas é melhor ser menos otimista.

Enquanto não define o personagem, ele define o que se passa. Mas tudo passa, nada fica. E o que fica a definir? Tudo que passa. E ele passa a prestar mais atenção nisso. Mas tudo passa tão rápido. Passa com a rapidez de uma nuvem. Na velocidade de um nada. O tempo é não vem que não tem. E assim falta a idéia. A idéia pra começar a história. O conto que ele nunca vai acabar de escrever. A memória que não resistiu ao tempo. O vento que virou um quadro na sala.

Uma mala largada no aeroporto. Uma aeromoça presa no banheiro. Dois passageiros brigando por um táxi. Com essa tela ele pensa em começar. Começa a pensar sobre isso: mala, banheiro e táxi. Parece roteiro de filme. Não é bem o que ele estava esperando. Ele está pensando em algo maior, melhor, mais substancioso. E por mais doloroso que seja, ainda não é. Nada chega perto de uma mera coincidência. Porque coincidência pra ele ainda não significa sincronicidade.

A essência de tudo está longe. E chegar vai ser difícil, mas não impossível. Coisa que ele não sabe enquanto tenta escrever. Dá duro para ler as idéias que não tem. Ele sente uma certa dificuldade em caminhar sozinho. A vida leva a muitos caminhos e todos têm um começo. Ele lembra do endereço, do personagem, da passagem de capítulo. Lembra de como tudo vai ser no conto que nunca vai acabar de escrever. E por lembrar, levanta. Mas não adianta: nenhum ovo de novo.

E depois de tudo, assim como se nada, ele tem uma idéia. E resolve escrever, sem pensar. Sem levantar pra ver. Sem medir. Sem tentar acreditar. Resolve escrever por escrever. Escrever, escrever, escrever. Como quem mente pra si mesmo. E assim começa mais uma vez o conto que nunca vai acabar de escrever. Não dá outra. Passam alguns minutos e muitas palavras surgem. Ele lembra que tudo isso já tinha acontecido. Lê o texto e acha parecido com algum texto já lido. Pensa que pode ser apenas um outro conto repetido.

Abatido com o que pensa ele pensa em fumar um cigarro. Pega o maço, abre, puxa dois, tira um, empurra outro, fecha o maço. Põe o cigarro na boca, pega o isqueiro na mesa e risca. Acende e traga. Solta fumaça e coloca o isqueiro na mesa. Olha a fumaça e lembra do isqueiro. Olha a mesa e traga o cigarro.

É interrompido pelo próprio escarro, numa cena catarrógica. Perde um pouco a lógica e por um momento tosse. Volta a sentar na cadeira. Olha o monitor e lê mais uma vez. Isso que ele fez está meio estranho. Não é o tamanho apenas, é o formato. Não é exato como ele planejou. Um rato aparece no quarto. Ele escuta o barulho de um elevador. Não o rato, o escritor. Parece que ratos gostam de elevador. Mas barulhos preferem ficar no quarto.

Ele pensa que há algo errado. Começa a reler o conto que nunca vai acabar de escrever, em ritmo acelerado. Ele esquece de ler uma linha. Lê uma palavra que não tinha. E continua até o fim. Chegando ao fim, ele pensa: não é a coisa mais intensa que já leu. Não tem a força imensa do que admira. Ele pensa.

Ele mira mais uma vez e pensa. Pensa que não é uma boa história, que poderia ter mais graça, que poderia sair fumaça pelo nariz. Pensa que nenhuma grande atriz vai querer interpretar. E como se tudo fosse giz em um quadro negro, ele pega o apagador e deleta. Desenha uma seta de borracha do fim ao começo. Não lembra do personagem, da mudança de endereço, da mala, do táxi, do ovo, de nada.

Para ele, a história está errada. Ele tem quer escrever certo. Ele está certo. Tão certo que não sabe que está errado por ter apagado o conto que nunca vai acabar de escrever. Ele tocou no tesouro. Ele conheceu a galinha que põe ovos de ouro. Ele teve a idéia pro tal conto. Ele escreveu o dito conto que nunca vai acabar de escrever. Ele escreveu e apagou sem saber. Sem saber que estava certo. Apagou por estar certo de que não era a idéia certa.

Ele está certo. A idéia realmente era errada. Mas o erro era justamente a idéia. A idéia era o erro. O erro perfeito, original, único. O erro certeiro. O erro era a idéia. A idéia pro conto que ele nunca vai acabar de escrever.


tolice #34


NOSSO SANTO CIRCO

se eu nascesse com nariz de palhaço
e enxergasse com olhos de freira
passaria da segunda à sexta-feira
vivendo um extra exorbitante domingo

pintaria meu rosto inteiro de sermão
abençoaria diariamente a macacada
inventaria a oração da gargalhada
subiria no alto da mais alta cruz

faria da piada um puro hábito divino
pregaria só com hálito de bom humor
rezaria pela fé no sorriso do louvor
aleluia ave maria cheíssima de graça

daria susto no senhor jesus cristo
zombaria de deus pai todo poderoso
e deixaria o reino dos céus furioso
ao fazer da igreja nosso santo circo


sonhar não custa nada #1


NÃO FOSSEM MEUS OLHOS
imagem de autor desconhecido



Estou sentado em uma moto. Não estou só. Uma moça de cabelos pretos me acompanha. Ela dirige a moto. Olhando melhor eu percebo: estou sentado em cima dela, na frente dela. Estamos na Roberto Freire, uma avenida próxima a minha casa, chegando perto do último retorno antes do Praia Shopping, um centro de compras voltado para os turistas praianos. Por algum motivo eu seguro a direção da moto e assumo o controle, sentindo um descontrole tremendo. A moça de cabelo preto se desespera, não tanto quanto eu, mas continua cuidando dos pedais e da aceleração.

Depois do retorno eu decido parar. Desde que fiquei sabendo que o peso do meu corpo estava todo em cima dela não consegui ficar tranquilo. Descemos da moto. Sentamos no calçadão. O calor nem é tão grande, apesar de ser dia. O dia está claro e limpo. Olho para suas pernas e pergunto se está tudo bem, já que estão marcadas com os contornos da minha roupa. Passo a mão por cima das marcas, com carinho, para desaparecem. Olho seu rosto e vejo uma expressão familiar.

Ela é uma mulher bonita, olhar leve, traços agradáveis. Percorro os olhos pelo seu corpo e agora a percebo melhor. É o tipo de mulher que ninguém vê nada demais, mas que no fundo, como toda mulher, tem algo de especial que a faz muito bonita. Sinto que estou de bermudas, mas quando a vejo colocar seus olhos por baixo, como numa brincadeira de criança onde um procura o outro no escuro, sinto que estou vestindo uma calça, daquelas folgadas, que nunca incomodam o corpo.

Seus olhos escuros, bem contornados pelos cílios e sobrancelhas pretas, me procura descontraidamente pelo pedaço de tecido que visto. Eu facilito o encontro: levanto o tecido elástico que envolve minha cintura e enfio meus olhos em busca dos seus. Passo por minha roupa íntima e percorro cada fio de cabelo das minhas pernas até encontrar seu olhar na altura do meu joelho direito.

Não sei o que aconteceu, pois me desloquei rapidamente daquele ponto para outro, localizado do outro lado da rua, há uns cem metros da avenida, no sentido de quem entra para o bairro. Agora estou a pé. Não está mais claro, já começa a escurecer. Ainda há alguma luz. O céu exibe as cores de um sol que se despede. Estou perdido, mas sei muito bem onde estou: a umas três quadras da minha casa. Não estou descalço, visto sandálias. O que me ajuda a carregar areia entre os dedos dos pés. No meu sonho, Capim Macio, o bairro em que vivo, ainda é um lugar cheio de areia.

Ensaio uma caminhada tomando a esquerda. Menos de cinco passos depois desisto, lembrando que minha casa é para o outro lado. Desço então reto a rua que está em minha frente. Caminho tranquilo, um pouco distraído. Uma coisa me chama atenção: o bairro está todo em obras. Para onde eu olho tem uma terra fora do lugar, um cimento batido, um tijolo esperando virar parede. Porém ao mesmo tempo está tudo abandonado.

Viro à direita e agora é só atravessar duas quadras para chegar onde moro. Esbarro em uma bicicleta e me assusto. Olho melhor e vejo duas, estacionadas na calçada. Duas bicicletas bem diferentes, mais longas, super reforçadas, como se fossem de corrida, esporte, coisas do tipo. Continuo o caminho. Sinto-me cambaleando, tal qual um bêbado ou um recém-acidentado, apesar de estar caminhando normalmente.

Chego a minha casa. Ela é grande, dois andares, predominantemente branca e tem um acabamento bastante rebuscado. A definição do estilo seria: casa mal acabada. Entro e sinto um clima estranho, tenso, como se alguma coisa estivesse por acontecer. Reconheço as pessoas dentro da casa. A casa não é só minha. Algumas pessoas moram aqui. Eis que me dou conta de que a coisa já estava acontecendo.

Ao ver todos indo pra fora da casa, decido fazer o mesmo. Agora estou com uma câmera fotográfica no pescoço. A noite já caiu. Não entendo bem o que estou vendo e estão me dizendo. De repente um barulho absurdo. Uma luz vinda da frente se aproxima. Tento pegar a máquina, colocar no modo filmadora, para captar algo do que está acontecendo. Mas nada. Enquanto tento, a luz avança, avança, até que passa por cima da gente, carregando um grande barulho e finalmente me mostrando a causa de tudo aquilo: um trem.

Um trem acaba de sair de cima da casa da frente, atravessar a rua, passar sobre nossas cabeças, e cair no trilho que continua por cima da nossa casa. Ou seja: há uma linha de trem passando por cima de onde eu moro. Não dá pra entender isso muito bem. O trem vem da outra casa, lá de cima, de algum trilho suspenso, algum trilho fixado sobre o telhado da casa, alguma estrutura inusitada o suficiente para me deixar boquiaberto. A luz e o som que chegavam, e escutei antes, eram o trem. O trem pulou de uma casa a outra sem sair do trilho. E seguiu viagem.

Assim que passou por minha casa, ele desceu e seguiu em frente até se perder no horizonte. O que dá no mesmo que dizer: até chegar onde eu não consigo mais ver. Atrás da minha casa é um descampado enorme, gigantesco, sem proporções ou medidas, basicamente coberto de areia. Imediatamente após o susto eu saio correndo. Vou para os fundos da minha casa na esperança de ver algo mais. Percebo uma viatura da polícia passando na rua ao lado, descendo, e estacionando na rua de trás. Era como se eles estivessem obedecendo a um chamado, uma ocorrência, como se alguém tivesse ligado um-nove-zero para pedir ajuda e comunicar sobre o trem.

Agora eu entendo. Tudo que está acontecendo é estranho para todos aqui. Eu não sou o único que está surpreso com essa loucura. Escuto mais um barulho. Corro de volta pra frente. Parece-me que outro deles vem aí. Novamente insisto na fotográfica, apesar da escuridão já ter se instalado. Enquanto minhas mãos tentam fazer algo, vejo outro trem decolar. Mas esse parece estar fora dos trilhos. Salta por fora da minha casa, em diagonal, num sentido duvidoso, porém com uma força e numa altura muito maior a do primeiro trem. Acaba encontrando a terra, lá bem longe dos trilhos, no meio de um terreno baldio, aparentemente desabitado.

Não sei muito bem o que aconteceu depois disso. Agora estou olhando pra máquina e confirmando que não consegui registrar nada. Paro e me ponho a pensar. Tudo isso foi muito confuso. A única conclusão que me vem, é que não fossem meus olhos, nada teria acontecido aqui.


nem todos têm título #3


cada olho é um ser
pode ver
na forma que cada olho olha

cada olho uma história
um olha de agora
outro olha de nunca

um olho vê memória
outro olho vê mira

enquanto um atira
o outro socorre

cada olho corre por um caminho
cada olho vê o mundo sozinho
cada olho tem sua própria direção

pode ver
na forma que cada olho olha
cada olho é um ser


quotidianus #2

CADÊ AS DUNAS QUE ESTAVAM AQUI?
imagens de lockstockb e chispita



Em época de fervorosos debates sobre aquecimento global, ecologia e sustentabilidade, lembremos da carta sem remetente com destino ao Grand Natal Golf. Uns dizem que pode ser antrax, eu, que sei que isso já saiu de moda há muito tempo, creio que seja apenas alguns milhões de toneladas de concreto. Quem abrir o envelope, por favor, me diga.

O fato é que campos de golf não são apenas famosos pelo consumo exorbitante de água para manter a grama em dia, mas também pelo uso permanente de pesticidas, altamente poluidores, diga-se de passagem, para afugentar todos os tipos de pragas. Com exceção dos investidores, é claro. Esse tipo de praga, pelo contrário, até que anda recebendo bons estímulos.

Maior que todos os municípios do Rio Grande do Norte, com exceção de Natal e mais outros seis, o audacioso projeto do Grand Natal Golf prevê um megaempreendimento imobiliário entre Pitangui e Jacumã, que vai movimentar cerca de 160 mil pessoas, entre moradores, visitantes, funcionários fixos e temporários. Quem passa próximo de onde o resort está sendo construído, se depara com a imagem do ator espanhol Antonio Banderas num outdoor, exibindo um sorriso falso e sem graça, acompanhado da logomarca do Grupo Sanchez. A propaganda, veiculando já há certo tempo, é um sinal de que as vendas começaram cedo, mesmo antes de algumas licenças ambientais básicas serem concedidas.

Mas Banderas, ou Tony Flags, como é carinhosamente chamado pelos amigos, não entrou na empreitada apenas por generosidade e altruísmo. Para levantar a bandeira da Sanchez era preciso algo mais, como amor, quer dizer, como ser um dos principais investidores e interessados no projeto. Ao lado de outra presença singularmente fenomenal: Ronaldo, o ex-craque da camisa número 9 da seleção canarinho, que num gesto de excessiva ingenuidade e boa vontade se deixou levar pelo caráter beneficente da obra. Conforme divulgado no site do Natal Grand Golf, Ronaldo não conseguiu segurar sua bondade, “ao conhecer o enorme impacto social e econômico que a iniciativa empresarial terá na região, decidiu colaborar também com o projeto”.

O modesto resort, que ocupará uma área total de 22 milhões de metros quadrados, contará com mais de 30 mil residências, além de 8 complexos hoteleiros de luxo, 5 campos de golf, um heliporto, shoppings, supermercados, restaurantes, bares, quadras de tênis, spa, campos de futebol, e tudo mais que o capital especulativo estrangeiro imaginar. E como se não bastasse o impacto social, urbano e sanitário de uma obra dessas proporções, ainda vai ser construído sobre o aquífero das dunas do litoral norte. Mas não é só o aquífero, nem as dunas, nem as comunidades do entorno, nem as espécies nativas de animais e vegetais, nem o mangue, nem os afluentes do Potengi, nem os córregos subterrâneos que deságuam na praia. É tudo isso e muito mais.

Segundo um representante da Spel, Sociedade Potiguar de Empreendimentos Ltda, uma das empresas irresponsáveis pelo projeto, não há motivos para pânico, pois “o Grand Natal Golf sempre foi pautado pela responsabilidade socioambiental”. E apesar da área escolhida para construção do resort ser constituída predominantemente de dunas, ele assegura aos ambientalistas: “Não vai haver construção sobre as dunas.” E aos preocupados com os impactos sobre o ecossistema de Jacumã e Pitangui, e outras questões sem tanta importância, como o destino que será dado aos dejetos humanos (leia-se fezes e urina) produzidos ali, ele é otimista: ‘‘Se as casas lotarem, no máximo irão residir na região 70 mil pessoas.”

Não é preciso ser um perito em matemática para dimensionar a quantidade de excrementos gerada pela rotina sanitária desse número de pessoas, exercitando a naturalidade de suas necessidades fisiológicas fielmente sete dias por semana. Puxar a descarga e seguir em frente talvez não seja a solução. É fato que a questão ecológica está fedendo tanto quanto a social. E não levem a mal quem diz que qualquer sociedade sem responsabilidade ecológica não pode resolver problemas sociais.

Ecoalfabetização. Coleta seletiva. Redução da emissão de dejetos e poluentes. Ambientalistas na Semurb e Idema. Incentivo para projetos auto-sustentáveis e ecologicamente corretos. Despoluição das praias e rios, fundação de novos parques, ampliação das zonas de preservação. Criação de núcleos verdes nos bairros da cidade, para garantir a defesa dos interesses ambientais e ministrar cursos educativos para as comunidades. Incentivo fiscal para empresas limpas e que apóiam projetos em defesa da natureza. Instalação de painéis solares em habitações de comunidades carentes. Direito de vida garantido às áreas verdes remanescentes nas cidades.

Chegamos ao ponto de tratar iniciativas ecológicas e conscientes como utopia, e um resort com shoppings e campos de golfe sobre as dunas do litoral como realidade.

tolice #33


ETERNO RETORNO

Tudo vira cinza
quando deixa de ser cor.
O amor é como tinta.
A vida se repinta.
Tudo vira cinza
depois do preto no branco:
mais um cigarro apagado,
outro poema desfocado,
um maço de versos perdidos,
qualquer fotografia desbotada.
Um dia tudo vira cinza,
mas nem tudo é cinza agora.
Tanto fora como dentro
sobram cores sem fronteiras.
Cinza somente o que já foi.
A cor é um eterno presente.
Não precisa agradecer,
perceber é o bastante.
A diversidade é multicor.
Somos todos coloridos.


musinematura #4


DEMIAN : HERMAN HESSE



Vez em quando surge um livro que vira de cabeça pra baixo nossa vida. Depois de ler uma obra assim, a nossa forma de ver o mundo muda por completo. E as coisas, inevitavelmente, deixam de ser as mesmas. Não precisa nem ser um best-seller, basta ser um livro oportuno. Oportuno é aquele tipo de livro que cabe exatamente em nosso agora, que conta detalhadamente a história de nossa própria vida.

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.” Esse trecho é a metáfora base que resume e exemplifica a idéia do livro Demian, do escritor alemão Herman Hesse.

Em Demian, conhecemos a história de um rapaz chamado Sinclair, que vive atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre a existência. Ele questiona o bem e o mal, reflete sobre as convenções sociais e levanta discussões sobre o mundo ideal e real. Tudo sob um cenário conservador de uma época envolta de ordens, regras e tradicionalismos. Mas envolvido numa aura de descobertas e experiências fascinantes.

Antes da história começar, um trecho em destaque: “Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?” Hesse provavelmente se refere à naturalidade. Mas expressar a natureza com naturalidade não é desafio apenas dele, a humanidade se debruça sobre o mesmo dilema há muito tempo, conscientemente ou não.

E por falar em natureza, essa é uma das temáticas básicas que alimenta as discussões levantadas no decorrer de Demian. Para ilustrar, cai bem mais uma parte: “Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e os livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.”

O livro fala por si só. Fica difícil lê-lo apenas uma vez. Ele tem tudo pra se tornar uma espécie de livro de consultas. É um daqueles títulos que é bom ter por perto, à disposição, para ler um trecho perdido no meio da história e sentar pra refletir. Herman Hesse não poupa nem um pouco de si mesmo para escrever Demian. O livro é como um retrato muito bem elaborado da fase que ele viveu da sua infância até a juventude.

Mais que um livro, Demian é o registro do homem restabelecendo contato com a divindade interior, com o eu mais profundo. As páginas da história estão cobertas de ensinamentos e mensagens que atestam a intenção do autor de espiritualizar o leitor. “Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho o conduz a si mesmo.”

Ler Hesse é pra poucos. E esses poucos que lêem, no meio de tantas dúvidas que possam ter sobre a verdade e a existência, podem contar com uma certeza: são privilegiados. Herman Hesse é aquele professor que não tivemos no colégio.



Pistorius ensina a Sinclair o caminho para Abraxas

- Afirmaste certa vez - disse me um dia - que a música te agradava por ser totalmente destituída de moralidade. Estás certo. Mas o que importa é que também tu não sejas moralista. Não há por que te comparares com os demais, e se a natureza te criou para morcego, não deves aspirar a ser avestruz. Às vezes te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso. Contempla o fogo, as nuvens e quando surgirem presságios e as vozes soarem em tua alma abandona-te a elas sem perguntares se isso convém ou é do gosto do senhor teu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer. Com isso só conseguimos perder-nos, entrar na escala burguesa e fossilizar-nos. Meu caro Sinclair, nosso deus se chama Abraxas e é deus e demônio a um só tempo; sintetiza em si o mundo luminoso e obscuro. Abraxas nada tem a opor a qualquer de teus pensamentos e qualquer de teus sonhos. Não te esqueças disso. Mas abandonar-te-á quando chegares a ser normal ou irrepreensível. Abandonar-te-á em busca de outro cadinho onde possa cozer seus pensamentos.


falando nisso #5


Onde me desacabo
e recomeço um novo caminho?

Que força me orienta
e enfraquece frente aos fatos?

Hoje minhas pernas
já seguem independentes,
numa dança experimental.

Música para ouvir?

Estou imerso de contraplanos,
desfocado sobretudo,
mas captando este passado.

Quando sigo
não olho quem vai me receber,
recebo a consequência
de ser sem olhar.

E guardo.

Aguardo tudo
que ainda me resta.

Admito minha condição
antes de recriar as partes
que só eu sei
como irão me despedaçar.


assim como se nada #9


NO CALOR FICAMOS NUS
imagem de michael wandelmaier



Aconteceu de novo. Não foi bem premeditado. Já sabia estar errado e mesmo assim permaneci. No erro. Dizem que é dele que se faz o acerto. Bem feito. Foi assim que tentei fazer. O prazer em segundo plano. Existem coisas mais importantes primeiro. Não estamos falando de dinheiro.

Falamos do mais sólido e gasoso, mais líquido e etérico. Tampouco o objetivo é mérito, que não passa de outra forma de conquista. A pista está escorregadia, embora eu saiba patinar. Aprendi há muito tempo, enquanto andava descalço. Nesses dias colecionava capas de caderno. Que seja eterno enquanto dure a letra da canção.

Um corrimão de escada. Duas mãos se intercalando. Duas bocas se calando. A solidão imensa. O conteúdo infinito. Ao som do grito que ninguém gritou. Observo aonde vou com a curiosidade de um olho. Com dois olhos penso ver profundidade.

Uma cidade que às vezes é quente. Mas não importa. Uma cidade que às vezes é fria. Abro a porta. Estamos bem abrigados. No calor ficamos nus. Capa, capuz e até luva nos dias de chuva. Uva, maracujá e melancia nos dias de sol. A colméia transbordando de abelhas. As velhas histórias de sempre.

As formigas transportando grama. A floresta em chamas esperando a água chegar. Se eu soubesse antes não estaria aqui. Sorri e juntei as mãos. Tudo que vi não passou de imagem. Mirando a miragem parece ser tão real. Não é isso que o final diz. Um pedaço de gesso serve de giz. Se alguém souber escrever.


priavera uma vez #15


DESEQUILIBRISTA

eu sou um caso sério
não há mistério nessa afirmação

dificultando sem pedir nada em troca
todo troco um dia volta pra gente

às vezes deixo a mente me usar
quando deixo abusar me desencontro

frente a frente com eu mesmo
mais que disposto a desestabilizar
me ponho inteiro fora de sintonia

nem tudo incorpora minha frequência

complico apenas por complicar
me meto no dessentido das coisas
sem intenção bem definida

agora sou pura inconstância


sonemas #2


REVOLUCIÓN



adios
hasta la vista
está escrito en la revista
la revolución no necesita armas
pero si de palavras


// revolución / em mp3 para download


nem todos têm título #2


nascemos
separados
e assim morremos

morremos juntos
e nascemos
assim


divagando por aí #5


COM QUE TRABALHA O PASSARINHO?
imagem de autor desconhecido



Grande é o número de seres que vivem ao nosso redor. Para não dizer: abundante é a quantidade de seres que somos. Há aqueles que os olhos vêem, que são muitos, numerosos, mas contáveis. E outros, inúmeros, que, além de não verem, os olhos desconhecem. Entre os que os olhos vêem há aqueles que vivem perto de nós e os que vivem distante.

Os que vivem perto de nós são presentes, corriqueiros, estão dentro do nosso campo de visão e é fácil se encontrar com um deles. Os que vivem distante habitam os lugares onde as cidades não chegam e dificilmente podem ser vistos. Uns mais difíceis que outros.

Entre os que vivem perto de nós, há os que aceitamos e os que rejeitamos. Os que aceitamos podem viver entre nós, desde que apenas em determinados espaços das cidades, e alguns até compartilham do pequeno espaço que convencionamos chamar casa. Os que rejeitamos não queremos nem ver chegar perto, mesmo sabendo que sempre estarão por perto.

Entre os que aceitamos, há os que estão livres e os que estão presos. Livres são aqueles que podem ir e vir, estão fora de jaulas, muros ou gaiolas. Presos os que não podem entrar nem sair, mesmo que tratados como bichinhos de estimação. Obviamente o ir e vir é algo mais necessário no reino animal do que no vegetal.

E não podemos negar que autonomia e liberdade de ação são essenciais na manifestação de qualquer reino. Sabendo que toda suposta autonomia ou liberdade de qualquer ser está sempre condicionada a leis maiores e regida por forças superiores. Quanto ao mineral e aos outros reinos que não se configuram como vegetal e animal, deixemos temporariamente de lado para nos aproximarmos mais do contexto humano.

Qual é o trabalho de seres como lagartixas, sapos, borboletas e passarinhos? Quais são os deveres de uma árvore? Qual é o projeto de vida da flor do maracujá? Teria a natureza concedido férias eternas aos companheiros dos outros reinos e os livrado do mundo das preocupações? E então condenado apenas abelhas, formigas e afins, a trabalho incessante e forçado, sem retribuições? Que trabalho, que deveres, que projeto? Que férias, que preocupações, que retribuições?

O acumulado de conceitos e pensamentos na mente do homem o impede de compreender o real sentido das coisas. Como também de aceitar a ausência de sentido nas coisas. Cada coisa fixada no homem é uma corda que o prende e o identifica com algo que ele não é. O homem pensa que está trabalhando. Mas, enquanto o homem pensa, com que trabalha o passarinho?

Religião vem de religar, reconectar o homem com sua origem. Ecologia é o estudo da casa, e ensina que a casa é o mundo.


tolice #32


ANTES DA PRÓXIMA PÁGINA

aquilo que eu quero
é também o que preciso
cada vez que sou sorriso
me tranquilizo e desespero

por ser como as palavras
minha vida é uma mensagem
falo de covardia e coragem
nessas linhas tão escravas

existência da vontade
consequência das escolhas
no outono sou as folhas
caio por necessidade


 
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