O PRÓPRIO REFLEXO DA NATUREZA
imagem de autor desconhecido
Meu pai viu no jornal a reportagem onde apareço dando uma entrevista sobre a devastação que anda acontecendo por aqui. Esse lance de cortarem todas as árvores e colocarem concreto no lugar. Cimento, tijolo e concreto no lugar de árvores, plantas e flores. Ele falou para eu tomar cuidado, trabalhar junto de alguma ONG, não me expor tanto.
Parece que ficou preocupado com a possibilidade de eu me empolgar demais e fazer algumas loucuras pela causa. É provável que tenha se referido à suposta necessidade de estarmos por trás de um movimento que nos encabece. E que também nos oculte, proteja, conserve, mantenha fora do alcance dos que não compartilham da idéia. Por falar nisso, que ONG é essa que nós fazemos parte? Estou falando por falar. Sei que não fazemos parte de nenhuma ONG. Mas pensei, por que não?
Então uma amiga me lembrou que esse papo de ONG sempre vem acompanhado de burocracias, cargos, funções e uma série de corporativismos. Além de, em grande parte das vezes, as ONGs estarem mais preocupadas com a própria sobrevivência do que com a vida da causa a que se propuseram defender. O que me fez lembrar imediatamente, e por completo, porque não fazíamos parte de nenhuma ONG.
Por que ser uma ONG se eu posso ser um Ser? O Ser. É o que somos. Formamos um grande Ser. Somos dedos da mesma mão. Nosso dever é o mesmo: colaborar com a mão, para a mão colaborar com o corpo. E o corpo trabalhar em conjunto com todos os corpos, pelo grande Ser que todos os corpos são juntos.
Não fique triste com a humanidade, pois isso alimenta tudo que estamos vendo de feio. Fique feliz apesar de tudo, que é aí que nasce a beleza. O bom humor é renovador, é a cor desse quadro. A alegria é coisa da alma, tem que brotar de nós. Toda dor que vemos lá fora começa aqui dentro.
Sua tristeza não é da humanidade, é do dedo que ainda não compreende que faz parte da mão. É do ser que ainda não compreende o estágio em que estamos. Somos uma parte da natureza que ainda está aprendendo a trabalhar a favor dela. É como dissemos anteriormente: talvez seja apenas uma questão de educação.
Por isso, não nos deprimamos, mas sim ergamos a cabeça para elevar o humor e ensinar o caminho da positividade. Se você não aprender a amar a humanidade, não pode esperar que a humanidade aprenda a amar.
A tristeza vai passar. É só olhar as crianças, o sol, as árvores, o mar, o céu, as nuvens, o olhar das pessoas boas, a infantilidade das pessoas más. Porque no fundo tudo é tão bonito. Todo esse esgoto, essa devastação, essa exploração. Essa carnificina, essa miséria, essas guerras, essas epidemias. É tudo tão bonito.
Observe a natureza em seus múltiplos estágios de aprendizado. A forma humana é o próprio reflexo da natureza tomando consciência de si mesma. É importante que você tenha isso em mente: a forma humana é o próprio reflexo da natureza tomando consciência de si mesma. Por isso tanto poder, e tanto poder de devastação. Porque poder tamanho quando mal administrado e dirigido acaba prejudicando.
Há de se saber controlar bem esse veículo, pois ele é fonte inesgotável de poder. Ou melhor: a energia que o alimenta provém de uma fonte inesgotável de poder. Portanto, eis o poder que atravessa o corpo do homem e desemboca em cada um dos seus gestos e falares. Eis o papel da consciência.
Ter consciência de que seus irmãos menores estão destruindo as folhas do jardim. Vai gritar com eles, bater neles, castigar? Ou vai começar a compreender que um dia eles vão crescer? Ou vai começar a perceber que eles são simplesmente repetidores, reprodutores de comportamento? E que repetem e reproduzem inconscientemente. E que o comportamento repetido e reproduzido por eles nada mais é do que um reflexo dos exemplos que nós damos, com cada um de nossos pensamentos, palavras e atitudes.
Compreender que os erros acontecem por inconsciência. Afinal, são nossos irmãos menores. Ainda são crianças que precisam da ajuda do pai. Mas se elas tiverem medo do pai, como vão estar prontas para aprender? Há de se aprender a lidar com o medo. A conscientização vem para iluminar todos os espaços que o medo tem ocupado.
Só iluminando cada uma das nossas células, e eliminando o medo que as controla, vamos encontrar um caminho harmônico, onde vamos dar a mão para o irmão ignorante.
Se o irmão maior não ajuda o irmão menor, e o irmão menor tem medo do pai e não escuta mais a mãe, fica muito mais difícil. Então que sejamos o irmão maior, para quebrar essa corrente e apresentar um novo movimento, com mais cores, para toda essa família.
Por falar nisso, só o irmão maior é capaz de ser mãe e pai de verdade. Os outros pais e mães por aí, que não tem a capacidade de dar a mão para os irmãos menores, os filhos, não são pais nem mães, mas simplesmente irmãos menores como os outros.
Irmão maior, eis o convite: compreender a família, aceitar os erros e ensinar os acertos.
divagando por aí #3
falando nisso #2
me pego ausente
por fora daqui
em meio a devaneios
e aspirações
por um momento
penso que a vida
poderia ser mais simples
como ver o dia se acabar
ou beber água da chuva
mas o que posso fazer só
além daquilo que me cabe?
espero com certeza
que esse dia chegue logo
pois já não me cabem
as lágrimas de ver
tanta vida abandonada
enquanto isso
procuro aqui dentro
uma forma de mudar
o andar da carruagem
musinematura #3
BACK TO BLACK : AMY WINEHOUSE
Um chute no pau da barraca. Se for para resumir a música de Back To Black, é isso que vamos dizer. Um grito numa rua vazia, um corpo se debatendo no chão, um copo quebrado no bar, um não bem entoado para todos escutarem. Qualquer expressão bem honesta e fiel de uma situação de caoticidade plena. Mas tudo imerso num contexto sonoro de extrema harmonia. O retrato perfeito de um sujeito sob efeito da arte, expondo suas inerências em um cenário musical.
Não comparem a música de Amy Winehouse com nenhuma outra. Por mais que suas influências sejam referências, ela criou seu próprio estilo. Back To Black é uma mistura complexa, emaranhada e densa de problemas mal-resolvidos, aprendizados, frustrações, alegrias, desilusões, descobertas e traumas que começaram antes mesmo de Amy imaginar que a música nasceu para ela. Parece que a vida da pequena Amy foi uma fábula conturbada no reino da confusão.
Mas Amy não se deixou abalar por nada isso. Tal qual todo artista que se preze, tudo que ela viveu serviu para engrossar o seu caldo. O caldo é aquele amontoado formado por todos os tipos de experiências, percepções e sentimentos possibilitados pela vida. Juntando todos esses momentos ela compôs a sua obra. Em Back To Black sobra talento, vigor, sagacidade e verdade. Com uma boa dose de independência, rebeldia, liberdade e força.
Nada no disco parece falso. As músicas são como variações sobre o mesmo tema. O tema é como uma compilação de muitas músicas. A faixa título do disco merece destaque especial. Back To Black é uma canção forte, uma balada atraente, muito bem embalada, categoricamente dançante e cintilante desde a primeira a nota. “Nós só dizemos tchau com palavras”, é uma das pérolas que podemos encontrar no miolo dela.
O disco é praticamente uma obra-prima. Dentro do que se propõe, é claro. O mundo da música é cheio de veias. Numa delas jorra Amy Winehouse. Que não abre mão do nome que tem e faz valer cada letra que canta. Dizem as noitícias* que ela já passou por duas overdoses. A primeira por cocaína, heroína, ecstasy, e crystal meth. E a segunda por crystal meth e trinta e seis horas de maconha. Dizem. O vinho está implícito. Dizem.
Nenhuma faixa merece ficar de fora: Rehab, You Know I’m No Good, Me and Mr Jones, Just Friends, Back To Black, Love Is A Losing Game, Tears Dry On Their Own, Wake Up Alone, Some Unholy War, He Can Only Hold Her e Addicted. Cada uma com uma roupa diferente, vestindo a nudez que por baixo delas é uma só.
Black To Black é um disco pra quem não tem nada a perder. Porque foi feito pra quem vive num tempo onde nada se perde, mas sim se transforma. Neste disco Amy Winehouse transformou poesia em música. É de arrepiar. E escutar repetidamente.
Eleja suas faixas e aproveite o presente. Back To Black é a prova de que a música continua viva como sempre, seguindo sua trajetória mutante e transmigrando de corpos em corpos incessantemente, elevando, revelando artistas, e gerando o fenômeno que chamamos de estrelas. Amy Winehouse faz parte de uma constelação musical muito importante. A astrologia explica a relevância dela.
* Noitícia [Do bra. noite + notícia] S.f. 1. Notícias obscuras, diretamente da calada da noite preta, das entranhas midiáticas do planeta, do fundo mais profundo do mundo do jornalismo comprado, da informação duvidosa e do argumento tendencioso.
Some Unholy War // Back To Black
primavera uma vez #13
ATALHO
venho de tropeços
uma vida de obstáculos
feita para ultrapassar
páro e me pergunto
se vale a pena prosseguir
na ausência de respostas
encontro fluidez
o que me fez
e continua fazendo
não são as coisas
nem as pessoas que sou
são as inevitabilidades
tolice #28
TODA MENTE É UM POUCO DEMENTE
ela finge, indaga, infringe
estraga, divaga, envenena
embriaga, aliena, condena
acusa, apequena, abusa
ela implica, envelhece, critica
entorpece, esquece, argumenta
adoece, acorrenta, inventa
reclama, violenta, exclama
ela retruca, cega, machuca
alega, desregra, copia
nega, desafia, ludibria
tortura e cria a loucura
ela age descontroladamente
engana repetitivamente
pensa contraditoriamente
mente inconsequentemente
conta outra #12
MARCHA SOLDADO, CABEÇA DE PAPEL
imagem de autor desconhecido
"Amanhã vai ser outro dia." A canção de Chico reconfirma que nenhum desespero é necessário e que a realidade vai apresentar de bom grado todas as inevitabilidades. Hoje voltei ao maravilhoso mundo daquela clínica de segurança do trabalho, mas não me atrasei. Cheguei dentro do horário combinado e fiz questão de esperar de pé o momento da tão esperada consulta fatal, quero dizer, final.
Não demorou para me atenderem. Ficou notório que a senhora adoro-ser-madame-porque-sim-mas-é-foda-não-ser-comida-por-ninguém queria me ver longe dali o quanto antes. Porém, nada de benevolência. Ela não ia me deixar sair impune da situação. Na ira dos seus olhos eu vi a imagem do inferno. O demônio escolheu aquela íris de palco e dançou para mim um belo espetáculo, que foi terminado subitamente quando a atendente comunicou que minha hora havia chegado.
Me recompus daquela apresentação alucinante na qual eu estava completamente imerso. Entro na sala e encontro o médico-chefe numa mesa de escola, sentado numa cadeira do mesmo estilo. Sobre a mesa vários papéis xerocados, aquela burocracia onde entram as devidas anotações respeitantes ao trâmite do procedimento segundo as normas diretivas.
Me acomodo na cadeira que me esperava e me sinto de volta à escola. Mas dessa vez alternando entre o papel de professor e aluno. Vejo azul nos olhos do doutor, e me pego pensando em como a miscigenação pluralizou nosso mundo, diversificando as raças e tudo mais. Quando me recomponho, pergunto seu nome. Não era Fritz como entendi ontem, mas sim um derivado, parecido, que por algum motivo desconhecido não vai ser citado aqui.
Ele explicou que eu estava ali porque o outro médico relatou que faço uso de substâncias ilícitas, e me questionou sobre isso. Respondi que já fiz e faria novamente. Ele então disse que isso significa que faço uso e devo ser encaminhado para um tratamento antes de ser diagnosticado como apto para o desempenho de uma futura função. Falei que ter feito ou vir a fazer não é estar fazendo, que no presente, naquele exato momento, por exemplo, eu não estava.
Ele falou que de toda forma tal prática vai de encontro a lei, que a empresa deveria ser notificada e esclarecida sobre minha saúde. Ao falar em lei, abriu uma brecha para discutir outras coisas. Aproveitei e explanei um pouco sobre o caminho do meio, as relatividades, a consciência, questionei o obedecer por obedecer, toquei no antiquadismo da lei e ainda descorri superficialmente sobre a possibilidade que temos de tomar nossas próprias decisões em situações onde o julgamento alheio é injusto.
Para não perder o costume de ir um pouco além do necessário, perguntei se ele seria então aquele soldado que ouve a ordem do general para matar um prisioneiro de guerra e simplesmente puxa o gatilho, sem reflexões, sentimentos, qualquer rastro de humanidade ou autonomia. "Aí eu provavelmente abandonaria", ele respondeu, confessando já ter sido militar, mas posteriomente mudando de carreira. "Ainda bem, aquele lugar não é para ninguém", eu aproveitei e disse, bem num tom de "sorte sua, foi por pouco".
Admiti que nunca fiz parte de nenhuma corporação militar e me sinto muito bem por isso. Então, quando eu já estava certo de que não haveria mais surpresas, veio a notícia: ele é professor. Não um simples professor, mas um professor de filosofia. O médico responsável por me avaliar é um filósofo. Nato ou não, mas é, pelo menos academicamente. Revelou isso ao meu convidar assim do nada, após escutar tudo que eu disse, para uma aula que ele iria dar sobre filosofia oriental.
Minha cabeça deu um nó por um instante, ainda não estava pronto pra compreender aquilo. “Eu já estive na Índia”, ele complementou. Então fiquei mais intrigado. Como um professor de filosofia que estuda a filosofia oriental se dispõe a seguir a lei sem pensar nas consequências? Que buscador é esse, que baixa a cabeça diante de uma ordem e acata sem questionar?
Conversamos mais um pouco e recebi das suas mãos um documento declarando minha inaptidão, pelo uso de substâncias psicoativas e ilícitas. Falei que entendia que ele precisava seguir um protocolo, mas que não seria o mais correto da parte dele, porque seguir um protolo nesse caso seria acima de tudo prejudicar alguém. E ele tinha nas mãos a possibilidade de fazer diferente. Mas não adiantou, ele não caiu no meu blablablá.
Resumindo, fiquei encrencado: tal diagnóstico me impedia de receber os benefícios do seguro-desemprego e talvez alguns outros. Tive que arcar com o custo de procurar outra empresa de segurança do trabalho para evitar complicações maiores. Me diverti relendo o diagnóstico mal-intencionado, até que decidir tocar fogo nele. Parece não ter sido uma boa idéia revelar minha realidade. Seria mesmo a mentira necessária para lidar com os hipócritas? Ou os frutos da verdade ainda estão por ser colhidos?
