conta outra #11


VOCÊ USA SUBSTÂNCIAS ILÍCITAS
imagem de autor desconhecido



Recebo da empresa a notícia de que fui demitido. Passada a festa de comemoração, recebo a informação de que devo realizar meu exame demissional. O lugar indicado para a consulta é uma clínica de medicina do trabalho. Avisam-me que o horário de exames é entre meio-dia e uma da tarde.

Quando chego ao local combinado uma funcionária já está fechando a porta para encerrar, me esquivo dela e entro. Por pouco não era atendido. Estou atrasado dez minutos. Da recepção, a dona da empresa, pelo menos parece ser, fala: “E você, o que quer?” Respondo que estou ali para fazer um exame demissional.

Ela se volta pra mim e diz: “Você entrou fazendo umas curvas meio estranhas.” Se referindo a minha atitude de não ir diretamente à recepção quando cheguei. Eu ainda estava me situando no lugar, compreendendo o ambiente. Permaneço calado e escuto. Ela, mostrando fazer pouco caso do meu caso, prossegue com um irritante: “Não sei se vai dar pra você ser atendido, encerramos a uma da tarde.”

Escuto e não respondo, percebendo que qualquer falar além da conta colocaria em risco minha certeza de ser atendido. Depois de outras perguntas burocráticas que fazem parte do processo, como quem sou, de que empresa venho e qual é meu erregê, aguardo um pouco mais.

Enquanto isso assisto, de camarote, à patroa da clínica sendo demasiadamente enfática, irredutível, controladora e hostil em assuntos corriqueiros ao falar com suas funcionárias. Todas mulheres jovens, ainda inexperientes, com exceção de uma, que percebo estar ali por pura necessidade e nada mais. Lugar deprimente, antiquado, desagradável. Um retrato perfeito da tristeza depressiva que são a maior parte das corporações.

Eis que me chamam para entrar, então me dirijo para sala do médico. Quando entro, a senhora dona da clínica está falando com o doutor enquanto um paciente aguarda o fim da consulta. Sento-me num dos dois assentos vagos, a certa distância da mesa em que acontece o atendimento, disposto a aguardar um pouco mais.

A dona chama meu nome, olhando para fora da sala. Chama novamente. E eu calado lá dentro, pensando comigo que não pode ser possível que essa santa senhora da adiposidade não esteja me vendo porque seu tamanho descomunal oculta tudo ao seu redor ou porque seu egocentrismo faminto comeu todas as possibilidades dela perceber um palmo adiante do próprio nariz.

Para salvá-la do ridículo, o doutor chama ela, indicando que eu já estou lá dentro. Ela me manda ir pra fora da sala. Avisa que lá dentro não é o lugar de esperar, apesar dos bancos, mas sim no corredor, de pé, sem encostar na parede, pra não sujar. Estranho a complicação, porque esse exame geralmente é simples, nada demais. Tenho experiência neles. Já fiz tantos que perdi a conta.

Sai o paciente que estava sendo atendido. O doutor chama “o próximo". Entro, cumprimento-o, sento. Ele pergunta o que eu tenho. Eu digo que não tenho nada, que estou perfeitamente bem. Esclareço que é apenas um exame demissional.

No meio disso, percebo que a fala dele é meio enrolada, difícil de entender, o que me faz chegar à surpreendente conclusão de que ele vem de outro país. Aproveito a oportunidade e pergunto se ele é brasileiro. Ele acena a cabeça negativamente, e eu, ainda curioso, questiono de onde é. “Cabo Verde”, ele responde, com um sotaque mais puxado que o português da padaria.

Ele pergunta se eu fumo ou bebo. Digo que apenas eventualmente. Pergunta se uso drogas. Estranho a redundância: perguntar se uso drogas logo depois de eu afirmar que bebo e fumo eventualmente. Mas tudo bem, digo que não. Mentira monstruosa, mas parece o mais correto. O momento não parece o adequado para assumir publicamente que sou usuário de café, chocolate, chá verde e de todas as outras coisitas que a vida oferece e eu possa vir a me interessar.

Continuo com meu interrogatório atrevido, me excedendo na curiosidade, e pergunto se ele gosta do Brasil, se é melhor que a terra dele. O doutor fala que prefere lá. Estendo-me na simpatia e expansividade exagerada e falo que é a primeira vez que sou atendido por um doutor assim, referindo-me a sua estrangeiridade. Ele, talvez por uma vida inteira de preconceito, ou por estar vivendo isso aqui e agora em nosso país, ou seja lá qual for o motivo, me pergunta: “Assim como? Negro?”

Digo que não. Esclareço que estou me referindo a ser um médico de fora. Aproveito a oportunidade pra revelar, sem maldade nenhuma, que realmente nunca fui atendido por um médico negro. E que justamente por isso a experiência está sendo interessante, diferente, como tudo que é novo. Ele recebe o comentário de uma ótica meio negativa, falando que isso não é tão difícil de acontecer. O que deixa claro que ele desconhece bastante a realidade local.

Corto o papo para evitar qualquer desentendimento. Ele pede para eu esticar o braço, para medir a pressão e a pulsação. Continuo na mania e no prazer de falar, comentando que por pouco eu não era atendido por causa do meu atraso. Ele conclui a medição, se volta pra mim, indiferente ao que estou falando, e diz que preciso voltar amanhã. Afirma que devo me consultar com o doutor Fritz, ou qualquer nome parecido, que é o outro médico, coordenador.

Fico imediatamente indignado com o pedido, afinal já havia perdido todo meu horário de almoço para me deslocar até lá e resolver tudo isso. Ele volta a frisar que devo comparecer. Esclareço que voltar implica em perder tempo e dinheiro, que o exame demissional sempre é um consulta simples, rápida, sem maiores complicações, apenas para me liberar legalmente da empresa a que me vinculei. Ele segue completamente irredutível.

Então pergunto por que devo voltar amanhã, o que está errado, por que ele não coloca a sua assinatura naquele pedaço de papel e me libera. Ele, com a maior seriedade do mundo, fala calma e espaçadamente, no bom e velho português de Portugal: “Você usa substâncias ilícitas.”

Quase eu caio na risada. Sinto-me imediatamente como um personagem no meio da melhor das comédias. Porém um resquício de sensatez me faz achar mais correto tentar me conter. Continuo meu discurso, sem sorrisos, com indignação, ressaltando que isso é uma acusação, e inteiramente desnecessária.

Eis que a senhora dona do negócio, e da bunda mais horrível e gigantesca que já tive o desgosto de presenciar, entra na sala para ver o que está acontecendo. O médico reafirma a suposta necessidade de eu ter que voltar amanhã. A dona arrogante e intragável vem tentar explicar porque eu preciso voltar, porém eu a advirto que já entendi.

Volto-me pra ela na tentativa de explicar a desnecessidade do meu retorno por uma coisa tão ínfima, mas ela me corta, dizendo que devo escutá-la. Aproveito a situação e digo que ela está bem acostumada a sempre falar e fazer os outros ouvirem, e que nunca se dispõe a escutar nada, mas que dessa vez ia ser diferente.

Continuo a falar. E consigo me superar, quando digo que compartilhar esse momento com eles não está sendo nada agradável pra mim, que eu prefiro não estar ali, que quero acabar o quanto antes com isso e de preferência não precisar mais voltar. Quando termino meu dizer ela já está ao lado da porta, me mandando embora, com uma cara de quem não conseguiu me engolir apesar do tamanho apetite.

Levanto-me, olho para o médico e dou boa tarde. Com sinceridade suficiente para esconder minha ironia. Paro na porta, olho nos olhos da patroa e dou outro. Antes de sair pela porta da rua ainda desejo boa sorte para as funcionárias, pois são elas que vão ter que aturar essa família feliz. E assim a porta se fecha.


falando nisso #1


folha caída
escondida no tênis
outono de saída


musinematura #2


DISTRAÍDOS VENCEREMOS : PAULO LEMINSKI



“Isso de querer / ser exatamente aquilo / que a gente é / ainda vai / nos levar além”. Intitulado “Incenso fosse música”, esse é um dos poemas que melhor representam o ideal transmitido pelos, quase nada convencionais, poemas de Distraídos Venceremos.

Já no título do livro, Paulo Leminski começa a brincadeira. Substituindo o “unidos” da expressão “unidos venceremos” por “distraídos”, o poeta paranaense desconstrói o sentido original da frase e a reapresenta ao leitor como uma nova idéia. Idéia fundamentada na certeza de que tudo vai dar certo, independente do que seja.

“Rio do mistério / que seria de mim / se me levassem a sério?” O poeta pergunta sem qualquer intenção de receber uma resposta. É a porta fechada na cara do mau-entendedor. Mas também uma janela sempre aberta para os admiradores da natureza. E assim se faz Leminski.

Por todo o livro o poeta despeja uma enxurrada de versos simples, cotidianescos, de fila de pão e de banco, de mesa de jantar e banco de praça. Mas como o dia não é só feito de sol, Leminski não é só feito de simplicidade. Em alguns momentos, ele se torna uma espécie de vanguardista erudito complexo, atravessando como um equilibrista refinado a corda que vai das tradições mais clássicas às novidades que só vão ser conhecidas na moda da próxima estação.

"Vim pelo caminho difícil, / a linha que nunca termina, / a linha bate na pedra, / a pedra quebra uma esquina, / mínima linha vazia, / a linha, uma vida inteira, / palavra, palavra minha."

Distraídos Venceremos é dividido em três capítulos. O primeiro leva o nome do livro, “Distraídos Venceremos”, e inclui grande parte dos poemas da edição, principalmente os metapoemas, ou seja, poemas em que a temática é o próprio poema. No segundo capítulo, “Ais ou menos”, Leminski apresenta versos de vida, espaço e tempo, falando sobre as coisas que sobrevoaram o ar dos seus dias, que se misturaram à poeira do chão de sua casa. Em “Kawa Cauim”, última seção do livro, o poeta apresenta uma série de haicais.

Os haicais são poemas curtos, de três versos, que seguem uma estética estruturada pela escola japonesa. Mas Leminski não se prendeu às regras e aos padrões do estilo haicaiano, e inventou sua própria forma de compor nessa estética.

Leminski teve uma vida curta e intensa, marcada pela atividade literária incessante, com criação de obras respeitadíssimas no universo poético, sendo admirado inclusive no exterior. Seu trabalho não se limitou à poesia, mas sim utilizou a poesia para alcançar destinos ainda mais distantes.

Foi também autor de contos, romances, ficções, resenhas, escreveu biografias de personalidades, traduziu livros, colaborou com revistas e jornais. Leminski foi professor de história, redação e judô. Também trabalhou durante muito tempo como publicitário. Além disso, realizou inúmeras parcerias musicais, compondo canções de sucesso com artistas como Caetano Veloso e Itamar Assumpção.

Distraídos Venceremos é um livro que retrata um grande momento da carreira de Leminski. Sua poesia está amadurecida e inteligente, sensível e liberta, atenta e dispersa, e, principalmente, viva. A força da vida, a vontade de superar, transpassar os limites, transcender as limitações, é a marca do trabalho poético leminskiano.

Na opinião de Leminski a poesia não tem que esclarecer coisas, ditar regras, sistematizar, mas sim dispersar, produzir novas possibilidades. Por aí você tira o espírito da coisa que alimenta Distraídos Venceremos. E não é que estamos vencendo mesmo.



"A poesia faz parte das coisas que não precisam de porque."


primavera uma vez #12


ENCONTRO PARA CAIR DE VEZ

exaustão, seja bem-vinda

sua fisionomia me encanta
de tão frágil e desolada

sente aqui pra uma conversa
me conheça um pouco mais
estou disposto a me revelar
aos seus olhos desiludidos

você que tanto evito
abandono e não faço questão
talvez mereça uma chance

apresento meu bocejo
que diz tudo sobre mim

abro os braços, esticados
quero ouvir você falar


assim como se nada #7


QUEM SEPAROU AS PALAVRAS?
imagem de tiago mesquita



Resolvi te escrever de novo. Não sei bem porque. Talvez a vontade de falar com alguém. Não com alguém qualquer, que aí seria um ninguém. Vontade de falar com alguém interessante. Não qualquer alguém interessante, que aí seria um interesse qualquer. Vontade de falar com alguém mais próximo das minhas ilusões.

Não sei se você sabe, acho que em partes sim, mas você é uma delas. Observo à distância e admiro a forma que você toca as palavras, e como isso reflete em mim. Observo que admiro a distância. Observo que admiro o espaço. Não faço isso por gana, nem por sexo. Também não vou dizer que é por amor, só amor por si só, como se não fôssemos ainda egoístas, orgulhosos, rancorosos, entre outros limitadores.

Num mundo onde não há só amor, o que estou sendo contigo é um pouco de cada coisa que eu sou. E eu não sou só amor nesse mundo. Mas se estamos num mundo onde tudo é amor, isso que eu sou agora contigo também é. Num mundo onde o significado da palavra amor não seja rosa e nem romance de novela, isso que eu sou é muito mais.

Dentro desse mais eu falo em ilusão. A minha imaginação não é ótima? Minha capacidade de construir realidades? De me reinventar, reintitular, recriar? Sei que ela é fértil o suficiente para brotar muito. Como, por exemplo, nós dois.

Nós dois estamos juntos sem estar. Porque aqui estou só, e mesmo assim tenho algo a dizer pra você. Eu falo pra você como se você estivesse me escutando. Eu falo como se você quisesse me escutar. E como se tudo que tivéssemos a fazer fosse só isso: escutar nossas próprias palavras.

E isso é ilusão. Eu não sou bom nisso? Creio que sou um grande iludido. Ou seria um ilusionista, me iludindo com as ilusões que crio? E também um alucinado. Mas sobre esse a gente fala outra hora. Sou iludido pelo simples fato de que crio minhas realidades.

É uma ilusão achar que agora estou só, só porque aparentemente estou só. Ou que estou acompanhado de você, só porque teoricamente estamos conversando. Ou que você realmente quer me escutar mais do que as outras pessoas escutariam, só porque está me escutando.

É ilusão porque a distância das coisas permite que a imaginação faça o papel principal. É ilusão porque das letras à realidade é um salto estupidamente quântico. É ilusão não porque as palavras não existem, mas sim porque são apenas uma parte da existência.

Eu creio que tudo isso que alimento e gosto e quero e espero e penso e esqueço não passa de ilusão. Essa ilusão é muito real pra mim. Eu acordo dentro dela. Eu durmo com ela.

Não sei quem foi que separou as palavras. Vou me dar o trabalho de juntá-las novamente. É ilusão pensar que vou conseguir. Mas não vou negar que essa é minha realidade.


tolice #27


MONGA

quando eu era macaco
não fazia perguntas
não imaginava quem eu era
nem porque tinha que ser assim
eu era feliz comendo bananas

hoje não subo mais em galhos
perdi o ma e fiquei um caco
divago em pensamentos sem sentido
sinto saudades de meu rabo perdido

para onde as bananas foram
enquanto eu achava que ia?


 
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