sonemas #1


sonemas #um é o primeiro disco de experimentos audiopoéticos lançado por t.mesquita. A estréia do álbum aconteceu em setembro de 2008, aqui no blog, e foi transmitida digital e simultaneamente para os quatro cantos do mundo conectado, marcando a chegada de mais uma primavera e a comemoração do aniversário de 28 anos do artista.



O disco é uma mescla de procedimentos artesanais com perfomances tecnológicas, inutilizando materiais herdados, reutilizando materiais danificados e utilizando materiais reciclados. O autor define a obra como uma reação orgânica inerente, um produto natural inevitável, de uma célula comunicadora com capacidade de processamento e aproveitamento cada vez maior de cada vez mais informações desperdiçadas pelos circuitos mentais e sistemas neurais que estruturam a teia da vida.

A experiência audiopoética sonemas é o resultado de um aprofundamento na temática da transmutação dos significados. São conceitos de alquimia reagindo para transformar a essência da mensagem. Sonemas é o nome para um conjunto de experiências e percepções rejeitadas pela sociedade, difamadas pela mídia e reprimidas pelo governo, mas convertido em um pacote de resíduos poemânticos vocalizados eletronicamente por um artista disposto a inaugurar uma era de poetivismo.


// sonemas #um / em mp3 para download


primavera uma vez #11


DEMITA SEU PATRÃO

patrões me deixam louco
fazem eu me sentir sugado
jogando meu tempo no lixo

um lixo tóxico, venenoso
poluído, antiecológico

carreira profissional?

patrões me deixam louco
são tantas exigências fúteis
esforços inúteis no afinal

e falam: vai, faz, mais
sem quê nem para quê
haja desnecessidade

patrões me deixam louco
às vezes puto da vida
porque sobram insanidades
na escassez de inteligência


tolice #23


NOVELA MEXICANA

sofrimento é dor
dor é oposto de prazer
quem sente um sente outro
é intrinsecamente inevitável

episódio inegavelmente óbvio
choro passado e risada presente
paixão agora com ódio depois
desdém e vício alternadamente

tudo pode acontecer no sentir
o drama da emoção é para todos

quanto vale o sentir?
não mais que umas vidas

no próximo episódio a dor se vai
de mãos dadas com o prazer


conta outra #9


POR ALGUNS SEGUNDOS
imagem de modigliani



Me pego pensando sobre nada e por isso presto mais atenção nos meus passos. Enquanto me desloco pacificamente em direção a um posto de gasolina. Não para abastecer minha geladeira de álcool, mas para saborear uma cerveja. Pois noites agradáveis só deveriam atrair coisas agradáveis. Então duas motos da polícia passam por mim, em marcha lenta, no exercício diário do ofício, traçando o caminho que eu estava pronto pra percorrer.

Viro à direita, entro no posto, avisto os guardiões da segurança pública. Estou disposto a olhar com menos julgamentos. Inclusive penso em cumprimentá-los. Já que uma noite boa assim não acontece qualquer dia. Além do trajeto em questão ser cotidiano de ambos. Aí percebo que um deles já estudou num lugar onde estudei na mesma época que eu. E, não me falhe a memória, tinha uma banda de rock. Ele tocava alguma coisa elétrica com cordas, conectada num amplificador, e aparentava gostar realmente disso. Não sei como acabou em coturno preto e arma de fogo.

Me pego pensando assim nos caminhos que a vida toma. Nas escolhas que nós fazemos e nas opções que temos em mãos, conseqüentes de nossas ações ou omissões. E se todos nós paramos mesmo pra pensar sobre isso, observar nossa trajetória aqui na vida e perceber a história que estamos criando. Por alguns segundos fico sem palavras. Abro a cerveja, olho as estrelas, dou um gole e volto pra casa.


tolice #22


SINAL VERMELHO NÃO PÁRA

se me esbaldo
é porque não me contenho
é porque assim me tenho
e faço o meu caldo

se aqui venho
não há lá grande motivo
não há tom provocativo
porém talvez empenho

se então vivo
pode ser alguma culpa
pode ser uma desculpa
ou um vão paliativo

se me insulta
é evitável um transtorno
é remediável um retorno
você é a sua multa


assim como se nada #5


MAIS UMA BOLA DE SABÃO
imagem de autor desconhecido



Quanto a minha vida? Bem, anda assim perto da sua. Deixando ser como será, tal qual quando loshermaneamos. Com reviravoltas também, afinal o toma lá de cá é eterno. No mais tem sido uma experiência bacana, útil, apesar dos pesares. E quanto a esses pesares, sei que é uma questão de transposição. Basta eu me dar conta de que ali está uma possibilidade de evoluir.

Tenho tentado olhar essas coisas da vida sempre com novos olhares. Mesmo que o velho vício de se acostumar tente atrapalhar esse feito. Claro que encarar tudo isso como uma brincadeira tem sido fundamental. O caminho da seriedade exclusiva sinceramente não me estimula tanto. Talvez porque meu caso esteja para um passeio num dia de frio: sem casaco não tem graça nenhuma.

Continuo na busca de ser essa mudança, raiz da juventude eterna e vida contínua. O haver sempre o que mudar, inclusive de direção, um para onde ir que vai, mesmo sem ver horizonte. Ou quem sabe vendo, mas sem saber de fato que sim.

Muitas memórias eu perco por esse caminho. Não sei se por desleixo ou necessidade. Mas é como um amigo diz: a memória guardará o que valer a pena. No caso, a minha guardou essa afirmação muito bem. E talvez esse desperdiçar de muitas memórias tem facilitado bastante. São menos raízes pra me segurar, menos âncoras pra me afundar.

Nadar pra longe daqui realmente não me apetece. Me sinto melhor quando alcanço a tranquilidade do meu lugar. Esse boiar que me faz eu. Esse flutuar que me desfaz. Quero dizer, se estou no presente, quando estou conseguindo estar, está tudo bem. É essa vida que eu digo que deve parecer um pouco com a sua. Reservando, é claro, o direito de suas devidas diferenças. É a vida que está sendo vivida naquele esquema que você citou, de estar sendo exatamente como deve ser. Ou algo como: a vida vem sendo o que sou.


primavera uma vez #10


BÚSSOLA

um pé atrás por um instante
mas nada que impeça de seguir

adiante é um imã inevitável
atração é o chão que piso

o tamanho das dificuldades
contraposto à minha força
é quem dita cada pegada

sou eu quem quer assim
posto à prova no percurso
então me faço magnético


tolice #21


BOIAR ENCHE BARRIGA

boiar
como cadáver
como lixo
como merda

não é fácil engolir
tomar banho de sujeira

boiar
como vômito
como sangue
como pus

complicado digerir
mergulho em rio poluído

boiar
como catarro
como mijo
como resto

até que dá pra distrair
foda é arrotar esgoto


divagando por aí #1


DESSOCIALIZANDO EU POSSO ME SOCIALIZAR
imagem de autor desconhecido



Muito de negativo tem se falado a respeito da dessocialização, sendo comum escutar coisas depreciativas sobre ela e seus simpatizantes. Enquanto isso, do outro lado da moeda, a socialização continua a ser tratada pela maioria como um bem indiscutível, a solução perfeita, o indispensável para todos.

Como ter certeza de que esse socializar imposto é realmente o melhor? Quem vai provar que um modelo único de se relacionar e viver seja o ideal? Às vezes chega a parecer que essa socialização forçada é uma das maiores culpadas pelos conflitos existentes. O homem é diferente por natureza. Ele não nasceu para ser igual. Para conviver ele pode até adotar costumes parecidos, mas nunca abdicar de seus propósitos natos.

A socialização deveria ser apenas uma ferramenta para facilitar nossa vida e não uma busca incessante pelo politicamente idiota ou alienadamente correto. Descredibilizar a dessocialização e os dessocializáveis parece ser uma das principais estratégias da máquina uniformizadora, que almeja acima de tudo uma sociedade organizadamente medíocre e singularmente manipulável. E para instaurá-la, nada tão eficiente quanto forçar todos a adotarem o mesmo comportamento.

Entretanto, essa tentativa ditatorial de homogeneizar o mundo humano, camuflada de avanço social, que nunca busca o verdadeiro bem comum, é de fato um esforço nulo: a dessocialização jamais deixará de existir. Ao que parece, mais do que qualquer coisa, ela se apresenta como uma proteção individual, uma possibilidade de preservação das idiossincrasias.

Essa dessocialização pode ser encarada como uma proteção instintiva e auto-conservatória, e não um distúrbio ultrajante e inaceitável como é bastante vista hoje em dia. O comportamento dessocializador é também um comportamento pró-neo-social, no sentido da vontade de formação da próxima nova sociedade, compatível com as necessidades de cada sujeito e não somente com as da maioria.

A fuga da sociedade atual nasce das diferenças naturais e da inadequação: nem o indivíduo se ajusta à sociedade nem a sociedade se ajusta ao indivíduo. Sendo assim, para os indispostos a embates e confrontos mais diretos, a dessocialização pode se apresentar como o caminho mais fácil ou mais útil. Não que seja uma solução ou deva ser adotada como prática, mas o afastamento do que é considerado sociável, nesta sociedade em que estamos inseridos, pode sim gerar novos frutos, com diferenças significativas. E que do contrário, certamente nunca seriam gerados.

Além de tudo, a existência, na teoria, é livre, e cada um tem o direito de definir sua prática e agir como preferir. Adotar um comportamento dessocializante é apenas mais uma opção. Tal ato pode ser creditado a uma série de motivos. Um repúdio de viver num contexto imposto pelo sistema e exposto pelas pessoas que inevitavelmente nos cercam, por exemplo. Um asco gerado pela maneira que os humanos se relacionam e pelos valores que insistem em manter. Um desprezo pela insensibilidade alheia diante das simplicidades da vida. Um abuso frente à impassibilidade dominante. Ou, até mesmo, um cansaço das injustiças, ironias, decepções, fofocas, intrigas e outras realidades deploráveis, que se manifestam e proliferam incessantemente à medida que a sociedade cresce irracionalmente.

A dessocialização então seria muito além do que uma simples atitude de rebeldia, seria um instrumento criado para se atingir uma socialização mais positiva. Onde toda a natureza esteja de fato incluída, e as divergências, marcas da pluralidade, sejam incorporadas, respeitadas e tidas como divinas e fundamentais para um futuro socialmente conveniente. E provavelmente utópico.


primavera uma vez #9


SATÉLITE

meu corpo é um veículo
inventado por mim
na intenção de criar
representar um papel
desempenhar uma função
cumprir uma missão

e recomeçar de novo
do já ao eternamente
e assim sucessivamente
um corpo em transformação
um veículo transitório
com destino ao nada


tolice #20


FECHE BEM A TORNEIRA

as palavras escorreram como água
deslizaram, escoaram, desaguaram
se foram, desceram como cachoeira

letra por letra, palavras pelo ralo
dispersadas, lançadas, arremessadas
entornadas, despejadas num bueiro
palavras jogadas dum desfiladeiro

pobres, vãs, injustiçadas palavras
porém a abundância as manterá vivas


tolice #19


(DÚ)VIDA

para viver é preciso duvidar
ter certeza da contradição
acreditar que nada é tudo
e que tudo nada significa

para afirmar deve-se negar
contestar o que for imposto
desobedecer o indiscutível
e a famigerada coerência

para acordar é preciso dormir
conhecer o prazer da preguiça
deitar na cama da incerteza
e sonhar com o inexistente

para perceber deve-se ignorar
examinar o valor do suposto
saber que o rosto é mentira
e que a verdade faz careta

para criar é preciso destruir
substituir o azar pela sorte
enxergar como surdo e mudo
e ser alguém além do porém

para duvidar deve-se viver
largar mão da convicção
meter os pés no avesso
e a cabeça no impossível


tolice #18


QUATRO LADOS DE UM ENQUADRADO

é porque
no seu pensar
errado é um fechado
que nunca será aberto

é porque
nunca sentiu
o vazio da realidade
e nem de si esteve perto

é porque
quando acordado
nunca teve de fato
um só momento desperto

é porque
nunca aprendeu
que a contradição
aponta o caminho certo


conta outra #8


SOBRE ACHISMOS, VIRTUOSFERA E ELEIÇÃO
imagem de gary taxali



O mundo de hoje não tem tempo a perder com conversa mole e papo furado. Não admite candidato sem partido nem bandeira sem nação. Hoje o mundo é uma mistura de desilusão e desencantamento. É tanto sofrimento que não há mais lugar. O problema de espaço é uma questão séria. E das mais relevantes.

Numa conversa com um amigo, que me apareceu dessa vez divulgando seu blog via msn, revelei minha imensa vontade de ver mais criação sua no blog que ele mantém. Menos reprodução alheia, menos repetição de conteúdo e mais do que ele escreve. Ele me disse que o propósito do seu blog não é esse. Que a literatura precisa de espaço. “Melhor escrever um livro”, disse ele.

Foi aí que eu entrei. Que portal fantástico. Uma viagem alucinante pela miopia humana. Como assim o blog não tem espaço? Seria a internet um apartamento de dois quartos? Não, é claro que não. A internet é justamente onde percebemos a fragilidade dos limites. É onde as noções de tamanho e capacidade ganham novas dimensões. O que são os limites na internet, se estamos falando de rede? Se falamos de conexão e compartilhamento, onde acaba o espaço?

Que eu saiba a internet é um espaço sem fim. É o própria tentativa de reproduzir o infinito. O Google prova que o universo está em expansão e não pára de crescer. O Gmail acompanha a evolução do cosmos e a cada dia ocupa mais e mais gigabytes na virtuosfera. O Orkut contraria as leis da física e comprova que é possível mais de mil corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço.

Como alguém vem falar que o lugar da literatura é no livro? É o mesmo que falar que o lugar do livro é na biblioteca. Seria a voz do meu avô avisando que só consegue ler na tipologia da máquina de datilografar? Ou é o homem que esqueceu que aprendeu a fazer fogo com as próprias mãos? Porque a literatura não tem lugar de ser nem razão. Não tem certidão de nascimento e nem de morte. Livro vira cinza. Internet é energia elétrica.

Literatura não tem pai nem mãe. Literatura é uma filha da puta que veio a vida pela própria conta e sem pedir licença. É uma santa que espalha seus milagres sem escolher quem vai receber. É a porra de uma hermafrodita celestial e reluzente distribuindo brilho por todos os lados.

Um blog não significa nada. O que ele transmite é o que significa. Meu amigo revela não ter grandes pretensões escrevendo no seu. Segundo ele, é mais para desafogar o MSN das pessoas. Senti que fosse uma direta pra mim. Sou daqueles que decreta chuva de poemas e envia não só mensagens pela internet, mas via SMS também. Penso que cada um tem sua forma de fazer arte.

Mas o blog não significa nada. O que significa é o que ele transmite. Ele me fala que usa a ferramenta mais como diversão rasteira. Mas por que rasteira quando ela é tem um alcance tão poderoso e profundo? Literariamente falando mesmo. A questão não é espaço? Nunca vi tanto espaço para explorar uma questão abertamente. Olho à minha frente e não vejo nada. É exatamente aqui que a internet faz caber tudo. Para mim isso não é apenas uma maravilhosa disruptura nos conceitos estabelecidos, é também um ponto de partida nunca antes alcançado na história da literatura.

Não que eu entenda tanto de literatura. E mesmo sabendo que definir não é melhor que sugerir, arrisco afirmar que a literatura é simplesmente pura elucubração linguística. Uma conspiração arquitetada nas entrelinhas da evolução da própria linguagem. Uma espécie de substância fomentadora e catalizadora da informação expressada na leitura que a existência faz dela mesma.

Meu amigo conta que se acha um assunto importante, ele fala mais sério no blog. A eleição, por exemplo, seria um motivo para maior seriedade. Aproveito a oportunidade e pergunto em quem ele vota para vereador. Ele diz que não vota para vereador. Eu digo que ele não vota, só trabalha com propaganda e escreve em blog. Ele diz que não acha que vereadores devem existir. Eu digo que ele trabalha com achismos. Ele diz que estou muito crítico. Eu digo que é estranho a falta de receptividade em um comunicador. Mas ele fecha a janela antes de ler o que eu sou.


tolice #17


SAMSARA

agora que estamos perto
descansando no mesmo chão
percebo as diferenças
que nos fazem combinar

um salto de lugar
uma vírgula abandonada
um trecho sem sentido
uma falha na memória

somos próximos por sermos
a velha história de começar


assim como se nada #4


NÃO PODERIA SER DIFERENTE
imagem de autor desconhecido



Então depois de tudo, você age como se nada. Você olha pra ele e esquece quem ele foi. Esquece suas virtudes, sua beleza, seu amor, sua força, seu olhar. Lembra apenas dos defeitos. Dos erros, das traições, das infantilidades, das mentiras. Ele que foi o homem da sua vida. Que se entregou, se despiu, te preencheu, te vazio. Que tanto te falou o quanto o amor custa caro. Ele que pagou cada centavo do seu preço.

Ele que foi raro, único e mortal. Que se matou para mostrar. Que viveu para explicar que o amor é mais profundo. Ele que inventou o mundo onde você foi rainha. Ele que foi linha para você ser agulha. E você não viu. Porque não quis. Não quis porque não viu. Ele que te escreveu por linhas tortas. Ele que nunca conseguiu fazer você entender o que ele disse. Ele que sempre soube da sua dificuldade para ler textos difíceis. E agora você esquece. Esquece que ele te quis. Que ele quis como nenhum homem pode querer. Porque ele não foi só um homem, ele também foi mulher. Esquece que ele foi seu homem e sua mulher.

Você esquece que ele visitou cada poro da sua pele. Que percorreu os mínimos detalhes do seu corpo. Que ele se arrepiou toda vez que te sentiu. Que ele chorou com a cabeça no seu ventre. Que ele acordou mais cedo para ver você acordar. Que ele contou cada segundo enquanto esperou você chegar. Esquece tudo que ele tentou dizer. Você só escutou o que quis. Você não quis ver. Ele que gritou, se esgoelou, se debateu, se agrediu, se explodiu, se dividiu em milhões de partes para você ver que ele existiu. Mas você não viu. Não viu porque só viu as aparências. E as aparências enganam.

Depois de tudo, você age como se nada tivesse acontecido. Você olha pra ele e esquece. Esquece como ele amou. Esquece que ele foi louco por você. Esquece as loucuras que ele fez. Esquece sua inocência, sua timidez, sua esperança, seu olhar de criança, sua mão de homem. Esquece que ele revelou seus mais íntimos segredos. Esquece que ele também sentiu medo e se protegeu com você. Esquece tudo que ele tentou mostrar, dizer, fazer. Esquece que ele te amou. Esquece que ele foi o amor da sua vida.

Você lembra que ele falhou, foi grosso, deu escândalo, não conseguiu se controlar. Lembra sua insegurança, suas dificuldades, seus traumas, seus pontos fracos. Lembra que ele não foi o homem que você esperava. Que não fez o que você queria. Que não agiu como devia. Que falou quando não era pra falar. Lembra que ele disse que amava mas não sabia amar. Lembra que ele errou, errou e errou. Mas os acertos, você esquece. A vontade que ele teve de mudar e aprender, também esquece. Esquece o abraço que só ele te deu. Esquece o dia que ele te beijou. Esquece que esse dia já foi todos os dias.

Esquece como ele apareceu na sua vida, como se aproximou, como se misturou com você. Esquece o que ele encontrou dentro de você. Esquece que ele se perdeu porque entrou em você. Você olha pra ele e não vê. Não vê nada. Mesmo depois de como ele agiu, ainda não foi tudo. Você não viu. Não viu como ele quis você. Nem o quanto ele te viu. Você não ouviu metade do que ele disse. Você só ouviu o que quis. Você não viu quem ele foi. Você se enganou, só viu as aparências.

Você olha pra ele e esquece. Esquece tudo, como se nada. Esquece que a vida passa e o tempo acaba. Esquece que ele existiu. Esquece que você envelheceu. Você olha pra ele e se esquece de tudo. Age como se nada tivesse acontecido. Esquece tudo que foi esquecido. Esquece quem ele foi e quem ele amou. Você olha pra ele depois de tudo, mas não se lembra de nada.


tolice #16


DEUS NOS DÊ FÍGADO

a etilicidade impede
a insanidade espanca
o arrependimento cede
o desequilíbrio manca

a perna ganha demência
a voz perde o compasso
o gesto mostra carência
o corpo implora espaço

a voracidade aumenta
a consciência reduz
o critério lamenta
o inevitável seduz

a cabeça diz atenção
a boca quer devaneio
o gole sente aflição
o copo vira recreio


tolice #15


ÉTER NA MENTE

quantas vidas vou viver
imerso no constante buscar
dividido em partes várias
multiplicando descobertas
colecionando existências?

quantas setas quero ser
à medida que me desaponto
no momento de se aventurar
por linhas tidas como tortas?

quantas vezes sou pensar
interpretando desafios
conjugando desaprenderes?


tolice #14


FLAUTA DOCE

nem os pregadores do varal
podiam segurar aquele vento
sopro de adeus estabilidade
beijo com gosto de vai levar

quando passava trazia música
refrescava o descanso na rede
mandava os cílios pra longe
mudava o sentido das formas

não mensurava os estragos
nem pensava nos entretantos
ventava livre como um pássaro
voava através das palavras

o vento balançava os barcos
fazia os cabelos dançarem
chegava e partia sem avisar
tinha razão de passar assim


para um mau entendedor #2


ENTRE EU E O ESPELHO

o que há entre nós é o que somos
não é espaço vazio o que não sabemos o que é
o vazio que somos é o que projetamos no que não sabemos
o que pensamos que somos é espelho
acreditamos ser espelhos de uma realidade refletida
mas o que somos é o que há entre nós
o que chamamos de vazio é o que somos


+


:: Espelho
Modelo, exemplo. Imagem, representação, reflexo. A parte vertical do degrau da escada. Desenho ou esquema que orienta a paginação de um impresso em conformidade com a diagramação estabelecida. Mancha nas asas de certas aves, formada por penas de colorido brilhante. Nas cigarras, membrana situada nos órgãos produtores de som.

:: Vazio
Que não contém nada, ou só contém ar. Entornado, despejado. Desocupado, despovoado, desabitado. Frívolo, vão, fútil. Falto ou destituído de inteligência. Vácuo. Espaço concebido como um receptáculo plenamente desocupado, com ou sem limites.


quotidianus #1


PROBLEMA DE QUEM PEGA ÔNIBUS
imagem de auro

Como uma cidade do tamanho e importância de Natal pode cometer a negligência de permitir que duas de suas principais vias urbanas de acesso, o trecho que mais atinge o turismo, a propósito, seja atendida por apenas uma linha de ônibus, controlada por uma única empresa, sem concorrência, com mais interesses corporativos e mercadológicos do que sociais?

Quem precisa se deslocar do complexo Ponta Negra ou parte de qualquer ponto da avenida Roberto Freire com destino à avenida Hermes da Fonseca, famosíssima extensão da Salgado Filho, parte da célebre BR-101, infelizmente só pode contar com a escassa frota da linha 46. E para isso, há de se esperar coisa de 46 minutos, uns três quartinhos de hora mais sessenta segundos. Irônico, não? Pode cronometrar.

Quanto tempo ainda falta para o transporte público deixar de ser visto como mais um bom negócio para oportunistas e ser finalmente encarado e pensado como um assunto de utilidade pública?


tolice #13


O VÔO DO SAPO MULTICOLORIDO

são motivos
e experiências
que contestam a verdade

são escolhas
e caminhos
para perturbar a lógica

são acasos
e destinos
que camuflam a paisagem

são espaços
e ramificações
para ornamentar a vida


conta outra #7


O SUJEITO AINDA ESTÁ ANTES DO PREDICADO
imagem de autor desconhecido



Acho que acabo de fazer uma das coisas mais inteligentes ou idiotas de minha vida: recusar uma proposta de três mil e algo por mês em uma das maiores agências de propaganda do nordeste brasileiro. A oferta era para um emprego temporário, não parecia ser nada demais: o velho nove às dezenove de segunda a sexta com horinha de almoço, trabalho de sobra, coisa e tal. O destino era o núcleo de varejo dessa grande agência, onde eu ia ocupar a vaga de redator que o redator deles deixou desocupada para aproveitar uma fatia da campanha política deste ano.

O que mais me estranhou no episódio foi que em nenhum momento sequer eu esbocei qualquer reação de interesse real pela proposta que recebi. Não vou negar que o valor do salário me balançou. Na minha curta carreira de publicitário não tive a oportunidade de receber proposta parecida. A casa dos três por mês até agora era nova pra mim. Tirando o brilho que parecia brotar desse monte de dinheiro visto junto no bolso da minha imaginação, nada aí me despertou curiosidade.

Realmente não sei se por inteligência ou idiotice, bom senso ou preguiça, tudo que me passa pela cabeça no momento diz respeito a me agradar. Excesso de egoísmo, talvez. Coletivo de possibilidades que não vêm ao caso nesse caso. O fato é que me abstive, recusei, neguei uma coisa que qualquer publicitário em sã consciência aceitaria, pelo bem da sua carreira, pela vida de seu portifólio, pela segurança do seu futuro profissional.

Mas parando pra analisar logicamente, até que faz sentido. Uma coisa que qualquer publicitário aceitaria é bem diferente de uma coisa que alguém que não é um publicitário qualquer, ou que é algo além de um publicitário, aceitaria. Uma coisa que um publicitário em sã consciência aceitaria sem pensar, sendo sanidade dentro dessa sociedade completamente insana justamente o oposto, ou seja, insanidade, não é coisa para alguém buscando ser algo além de um publicitário, um ser buscando ser consciente dentro de uma sociedade doente. Argumento justificado na própria sanidade do ser que encontra cura e fundamento além dos territórios dela.

Fica difícil saber daqui se o futuro me agradece ou condena pela minha decisão. Quanto ao presente, sem dúvida alguma com ele está tudo em ordem. Nada aqui saiu do lugar. Nenhum objeto foi tocado ou trocado de posição. O sujeito ainda está antes do predicado.

Uns dizem siga a intuição, outros falam em razão. Parece mais justo levar ambos em consideração. Minha ambição não me levou ao dinheiro, talvez me reserve um outro lugar. Inteligente ou idiota é a pergunta que não quer calar.

Pelo menos um texto idiota no lugar de cem anúncios inteligentes. Ou seria um texto inteligente no lugar de cem anúncios idiotas?


primavera uma vez #8


TRANSFUSÃO

há beleza
em doar lágrimas

é como um perfume
dos raros
diluído em gotas
de renovação


tolice #12


QUEM VAI LAVAR A LOUÇA?

para toda panela há uma tampa
para toda tampa há um tempo

o que sobra é lamento e saudade
um cozido frio da realidade insossa
uma sopa de osso com gosto amargo

na lembrança um sabor que não volta
no tempero o desespero dum passado
tudo misturado num adeus dissociação

entretanto continuamos panelas
mudadas reformadas reformuladas
iguais mas também tão diferentes

não há tampa que aguente tal mutabilidade
não há tempo que resista ao prazo de validade

resta esquentar o fogo e fazer o agora ferver


 
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