assim como se nada #3


ERA COMO SE EU ESCUTASSE
imagem de autor desconhecido



Não vou fingir que tudo foi por acaso. Quando avistei o outro caminho na minha frente, pensei duas vezes antes de seguir. Não era por ali que eu estava esperando ir, mas teve que ser assim. Tive que ser assim. Eu me dei, mudei, mas não adiantou. Era preciso mais. E eu com tão pouco. Um bolso cheio de palavras e só. Enquanto espano o pó dos livros, um título pergunta: o que palavra tem a ver com vida?

A ferida está aberta. As moscas estão chegando. Vou assistir cada ovo que elas vão pôr. Com dois pedaços de isopor vou fazer cair neve esta noite. E depois dos ovos, as larvas. Quero ver as palavras escorrendo pelo meio. E antes de ficar tarde, o pus. Esse eu pus no lugar certo. Aberto, ferido, inflamado e vulnerável. As larvas vão fazer festa hoje à noite.

Cada palavra é um mundo. E dentro desse mundo habitam bilhões de palavrinhas. Palavrinhas porque vistas de cima. Se vistas de perto, na proporção original, elas seriam o normal, o próprio tamanho da palavra, o mesmo tamanho do mundo. Um buraco aberto e profundo: esse é o mundo da ferida.

A vida é uma experiência inesquecível. Até que esqueçamos que a experiência somos nós. Quando chega nesse ponto, todas as linhas se quebram. Relações, ligamentos, fibras, tudo que estava por um fio, agora finalmente se rompe. E então é tudo fragmento. Sabe o excremento que rejeitamos? Volta tudo pro mesmo lugar. Olha eu voltando pra lá. Olha lá eu voltando aqui.

Sorrir por sorrir não dá mais. Sorrir agora é sinônimo de engajamento. Não se engane com as artimanhas da vida. Mesmo completamente emaranhado nelas é possível tentar compreender. Então num dado momento, num certo espaço, numa estranha circunstância, na instância duma entranha, eis que brota o sorriso. Ainda tenho todos os sisos: do primeiro ao quarto. Não posso dizer o mesmo sobre a amídala e o apêndice. O índice da minha vida está manchado de vinho. Sozinho ocupo uma cama de casal. O engajamento é fundamental. Sorrir está ligado a questões muito maiores.

Desde pequeno eu sonho acordado. Mas demorou muito até perceber que o sonho não acaba no quarto. Primeiro: os sonhos estão no mundo além das formas. Segundo: os sonhos existem antes de nós. Terceiro: os sonhos não escolhem os sonhadores. Claro que perceber isso foi como um choque. E como eu estava sentado, me senti numa cadeira elétrica.

A métrica, a rima, a pausa, a poesia de cada palavra vem do ar que respiro. Giro trezentos e sessenta graus, em todos os ângulos, para todos os lados, em todas as direções. Não é suficiente apontar a atenção para alcançar um objeto. Por mais que a gente corra, o sol sempre corre mais. Essa lição eu aprendi trocando de lanche no recreio. Era uma época em que os seios das mulheres só existiam para dar leite.

Hoje eu quero muito mais que mamar, que chorar, que sonhar. Hoje quero um samba que eu não escute, uma bebida que eu não beba, uma saída que eu não dê. Quero apenas sentir a graça e a desgraça do quê de cada enfim. Não fale de mim dessa forma. Não fale de mim como se falasse de mim. Não fale de mim sem saber que você só fala de você.

Eu estou cansado, abalado, devidamente desestruturado, e desequilibrado suficiente para dizer coisas que ninguém quer ouvir. Por isso peço cuidado. Aviso aos navegantes. Meus alto-falantes estão operando em volume máximo. Eu dei o máximo, estou dando o máximo, vou dar o máximo, e sei ainda que não é suficiente. Tente outra vez, com Raul Seixas.

As queixas continuam chegando e começam a se acumular lá fora. Acabou o espaço aqui dentro. O centro dessa discussão se movimenta tal qual uma estrela. A palavra que foi apagada no texto não foi apagada na vida.


tolice #11


RETRATO TRÊS POR QUATRO

pensou ser um cachimbo
vestiu-se de saxofone
abandonou a coerência
fez músicas para si mesmo

era um homem da noite
habitante da boemia
gostava de observar
mas nunca tirar o chapéu

na cabeça mais um sonho
no joelho outro arranhão
jogou os dados sem olhar
quando caíram ele v o o u


musinematura #1


FRIENDLY FIRE : SEAN LENNON



O céu está estrelado, mas pode ser que chova mais tarde. Se você quer um pouco de melancolia para acompanhar suas noites de solidão ou manhãs de pão integral, Sean Lennon é uma opção. Em seu Friendly Fire ele dispara 10 canções dignas de um café da manhã na varanda de uma casa de campo próxima das montanhas. Se você não mora numa casa com varanda, nem tem uma casa no campo, tampouco está próximo das montanhas, assim como eu, ao menos um chazinho dentro de casa ou uma pausa para lavar as mãos cantando.

A questão é: em Friendly Fire, (não queria fazer referências, mas fica impossível,) Sean revela muito do que herdou de John, do que admira em George e do que, querendo ou não, aprendeu com Paul. Estamos falando de instrumentos de corda. Ou se não herdou, não admira e nem aprendeu, ao menos remete bastante ao jardim que os garotos de Liverpool plantaram alguns anos antes dele ser concebido.

Mas Sean não se limita a isso. Ele desenvolve sua própria música, em um contexto completamente diferente. Seu rock é pós-Jetsons. É para os que entraram o segundo milênio pós-Cristo sem qualquer disposição para servir às forças armadas ou trabalhar a vida inteira para comprar uma casa própria. Sean toca para uma geração que nasceu logo após a internet e está mais preocupada em viver o agora do que ser um executivo de sucesso amanhã. Friendly Fire é leve, delicado, reservado, gradativo, inspirador, e até dançante.

Sean mostra pro que veio e definitivamente entra pra história da música com esse disco melodioso. Fique registrado: ouvir demais pode cansar. Como qualquer excesso o uso desse disco também é danoso. Estão nessa compilação: Dead Meat, Wait For Me, Parachute, Friendly Fire, Spectacle, Tomorrow, On Again Off Again, Headlights, Would I Be The One e Falling Out Of Love.

Friendly Fire é um disco para ouvir só. Só escute junto de alguém que também já escutou. Tem algo de disruptivo, afasta as pessoas. Não que distancie exatamente, apenas dificulta uma aproximação total. Justamente por envolver o ouvinte numa atmosfera de desconexão com o mundo cotidiano para inseri-lo no mundo da música. Da música melancólica, é bom frisar.

Fazendo uma associação com o cinema, Sean Lennon está mais para Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Se você tem histórico depressivo, cuidado, talvez seja melhor um Chuck Berry. Porém se você está são e salvo, e garante que não pode ser derrubado por um sopro, o alvo está aí: Friendly Fire.



Would I Be The One // Friendly Fire


primavera uma vez #7


PORQUE LIBRA NÃO É PEIXES

Meus pés não sabem nadar.
Desconfio que nunca quiseram.
Prefiro tentar entender o porquê.

Não insisto
nem os forço a fazer nada.
Limito-me apenas a observar.

Olho meus pés no dia-a-dia.
Noto alívio ao tirar os sapatos.
Percebo ambos apáticos.
Compartilho a dor junto com eles
e o cansaço na ponta dos dedos.

Meus pés estão cansados,
está na cara de cada um deles.
Vejo a expressão de sofrimento,
como se o inferno fossem unhas.

Venho olhando meus pés,
cada vez entendo mais.
Sei que são dedicadíssimos
e precisam de descanso.

Meus pés não sabem nadar.
Talvez voar seja mais fácil.


tolice #10


CÁ PRA NÓS

por que me chamou então
se não era isso que queria

minha porta em seu chão
é cada jeito de escapar

mas pára e olha
se tem certeza do que diz
se não está faltando nada

deixa as dúvidas pra lá
aceita esta condição

tem que a mão abrir também
de tantas e tantas formas
e quantas e muitas vezes

porque apesar de me chamar
existem outras vontades

não sou eu quem vai mostrar
você só enxerga o que quer

já faz um sempre que é assim


para um mau entendedor* #1


TUDO É RELATIVO

as relações
são as linhas
que ligam os pontos
que sem as linhas
nada seriam

mas linhas e pontos
nada são
onde pontos e linhas
são tecidos


+


:: Relação
Parecença, semelhança, analogia. Referência, ligação, vinculação. Comparação entre duas quantidades mensuráveis. Capacidade de relacionar-se, conviver ou comunicar-se com os seus semelhantes. Categoria fundamental que designa o caráter das idéias que conferem unidade a dois ou mais objetos. Correspondência entre conjuntos, ou a expressão dessa correspondência. Num encadeamento de acordes, a correspondência entre os intervalos de um e de outro acorde.

:: Linha
Fio, traço, risco. Traço contínuo, visível ou imaginário que separa duas coisas contíguas. Série de palavras, em geral formando um sentido, e escritas numa mesma direção de um lado a outro da página. Traço imaginário em uma determinada direção. Num espaço, lugar dos pontos que só tem um grau de liberdade, subespaço unidimensional de um espaço com duas ou mais dimensões. Faixa de vibração, correspondente a um elemento da natureza, dominada por determinada potência espiritual cósmica.

:: Ponto
Sinal de pontuação com que se encerra um período. Lugar fixo e determinado. Ponto de parada. Grau pelo qual se mede algum valor, por acréscimo ou diminuição. Sinal que se dá para marcar o tempo. Configuração geométrica sem dimensão, e que se caracteriza por sua posição. Elemento com que se definem axiomaticamente as propriedades dum espaço.

:: Tecido
Composto, produzido, gerado, engendrado, formado, organizado. Entrelaçado, trama, teia de fios. Conjunto de células de origem comum igualmente diferenciadas para o desempenho de certas funções num organismo vivo.


+


Para um bom entendedor,
meia palavra basta.
Mas para um mau?
Talvez uma inteira
ainda não seja suficiente.


* Seção criada para dificultar ainda mais a vida de quem não entende o que a poesia quer dizer com as suas palavras. Apresentaremos aqui os significados de algumas palavras-chave, ou seja, aquelas palavrinhas de maior importância e representatividade dentro de um texto. Publicaremos poemas éditos e poemas ainda inéditos. Portanto pedimos paciência, na ausência de entendimento, se por ventura você vier a ler algum escrito postado anteriormente no blog.


primavera uma vez #6


ALL-STAR QUARENTA E DOIS

não se dê tempo de pensar demais
para não correr o risco de exceder
e sem querer passar dos limites

o segredo é saber onde pisa
escolher um caminho convidativo
ou qualquer aliado da intuição

é mais fácil chegar
melhor de viajar por inteiro

a vantagem de seguir assim
está no valor de cada passo


tolice #9


TEIMAR DEMAIS PODE MATAR

teimosia teima
teima teima teima
teima teima teima teima
teima teima teima teima teima
teima teima teima teima teima teima


conta outra #6


QUER PAGAR QUANTO?
imagem de autor desconhecido



Logo após sairmos incólumes de mais uma entre tantas madrugadas em Pipa. Já havíamos passado por todos os points da noitada, escutado todos os hits da estação e gastado quase todos os reais que haviam em nossas mãos. Já havíamos cruzado com todos os vampiros, que a propósito não se atraíram nem um pouco pelo amargor do nosso sangue. Sangue vermelho já contagiado pelo excesso de azul. Azul que se tornou um novo mundo de cores naquele início de manhã. Manhã onde os rótulos se mostravam dispensáveis, mas que independentemente disso insistiam em continuar presentes. Sejam bem-vindos então: a existência é grátis.

Um arco-íris foi o bom dia que recebemos assim que chegamos à praia. Praia rosa alaranjada com toques púrpuros de lilás. Restava-nos parar e contemplar. Pois bem, decididos seguimos até um banco que gentilmente nos convidou a compartilhar daquele momento em companhia de seu assento. Restava-nos aceitar. E a origem, a mãe, a fonte daquilo que estava acontecendo era o banco, nossos olhos ou o céu? Nenhuma das anteriores. Nesse caso o mérito era todo da plenitude, da completa ausência de exceções. Restava-nos calar e desfrutar. Éramos somente imensidões prontas para o novo, custasse o que custasse.

Ela sentada ao lado dele. O sol já fazia efeito muito antes de nascer. Retinas e pupilas mais ativas que de costume. Era um dia de cinema. Por favor, duas entradas pra sessão das seis da manhã. De repente, ao som das fabulosas trombetas alucinantes de origem desconhecida, surge estampada na tela uma cédula de duas unidades de real. Azul como a noite, o dia, o sangue e a imaginação. Dois reais de oferenda são lançados ao mar. Duas prendas a pagar. Primeiro ela: descobrindo a escada, deslizando na areia, refrescando as pernas. Procura sobre as pedras a tal nota de real. O cenário era irreal, pura ilusão, criação mental, fabulação incrível, faz de conta levado a sério. Porém fazia todo sentido. Um pouco mais de sal nas canelas e assim hora da volta. Dois reais. O valor de um ingresso para visitar o Atlântico? Ou o preço da folhinha verde que ela trouxe como suvenir? Duas hipóteses reais. Falando nisso, quanto custa a realidade?

Era então a hora dele. Tudo pronto para a ação começar. Câmera na mão dos olhos dela, acompanhando cada passo que ele dava sobre os passos que ela deu. Nenhum dos dois precisava de dublê. As ondas quebram mais forte, mas a sorte tem raízes e conhece bem o chão. Estica o braço em plano aberto, câmera fechando no detalhe, vasculha as pedras que estão à venda e caoticamente dispostas na areia. Rochas de qualidade, procedência garantida, alta credibilidade e singularidade sem igual. Artigos únicos. Escolha difícil em meio à enorme opção. Quem cria a dúvida é a oferta. E quem compra, somos nós?

Close na expressão de encantamento dele ao chegar perto da pedra que iria mudar a sua vida. Corte pra ela, ainda sentada, observando atentamente, admirando a miragem, vendo na tela as cenas de um filme sem roteiro. Ele olha pra pedra, a pedra não olha pra ele. Toda escolha tem seu preço. Ele desiste da pedra, o que o leva a outra pedra. Na outra pedra ele encontra mais receptividade, disposição e razão para dizer sim. Traveling acompanhando a tensão dele segundos antes do crime acontecer. Ele toca na pedra, sente a pedra, sua textura, consistência e calor. Ele segura a pedra, olha pra um lado e pro outro, e enconde embaixo da camisa. Confere se está mesmo segura, devidamente bem guardada, e dá no pé sem demora. Atenção demais nunca é demais. Corre decidido em direção de onde veio. Sobe as escadas e finalmente chega perto dela, senta ao lado dela, que o esperava ali no banco, espectadora e platéia, como o esperaria em qualquer outro lugar ou momento, não por compromisso ou pena, mas por motivos de força maior. Existem coisas que o dinheiro não compra ou a vida é agora?

Quando o sol cresceu mais, as cores ganharam mais força, as ondas mais praia e a gente mais tempo. Era um daqueles dias onde o relógio caminha pra trás. Era tudo que a gente precisa para desfrutar tranquilamente de todo aquele cenário paradisíaco, digno de destaque especial em qualquer daqueles programas que apresentam os melhores roteiros turísticos para as férias do próximo verão. Mas não é só. Além de visitar cartões postais, ganhamos de quebra recordações pra toda a vida. Tudo isso pela pela bagatela de dois reais. Dois míseros reais: seis pãezinhos franceses ou uma lata de coca-cola. É ou não é um bom negócio? Nem pagando em dia o carnê do baú ou comprando a telesena nas casas lotéricas nos daríamos tão bem. Mas de repente, assim como um filme que começa quando você ainda nem encontrou o lugar onde vai sentar, a coisa ficou diferente. Com a cabeça lá na frente, pensando em farejar a sorte, acabamos atraindo um personagem um tanto quanto cômico pra nossa história. Quem não deve, não teme.

De onde ele surgiu é uma pergunta que não nos fizemos. Ele chegou falando em Al-Qaeda e acusou um de nós de ser um suposto homem-bomba. Alertou que não gostava nada disso, que era da paz e do amor, mas também confessou que por um momento chegou a desandar. E, como num surto de lucidez, se indagou sobre sua paz, já que deixava a mulher sozinha em casa com os filhos enquanto ia pra rua tocar o terror. Ele se referia às investidas que fazia às turistas. Segundo ele, elas gostavam, e muito, da sua beleza. Beleza que, só para constar, nenhum de nós conseguiu encontrar. Devia estar escondida a sete chaves em algum lugar verdadeiramente oculto. Falou que se alguma bomba explodisse pelas redondezas ele iria perseguir o responsável e dar o troco, mesmo que fosse preciso ir até o inferno e procurar debaixo da asa do capeta. Ficamos tentando encontrar uma relação entre bomba, troco e capeta, mas não conseguimos elaborar um raciocínio válido. Aqui se faz, aqui se paga.

Na quadragésima oitava vez que ele insistiu em oferecer uma latinha de sprite misturado com um etílico qualquer, nós já estávamos a ponto de procurar a gerência, a agência de viagens, o procon ou o que fosse para recebermos nosso dinheiro de volta. A brincadeira estava começando a ficar séria, custar caro e a paciência para continuar contracenando à contragosto, com o inesperado coadjuvante que queria assumir a direção da cena, já tinha cessado por completo. Em clima de filme que termina sem porquê resolvemos ir embora. No lugar dos dois reais, ficou uma pergunta: qual o valor do dinheiro?


tolice #8


CANÇÃO PARA MAREAR

o barco está solto ao mar
balança cansado mas segue

o barco não pode parar
nem voltar porque já passou
toma então qualquer destino
vai além do próprio tino

o barco não leva ninguém
nem sequer um só algum
viaja buscando o infinito
e dança um balé esquisito

os caminhos nunca faltaram
os atalhos sempre existirão

o barco encontra a maré
à deriva contra a corrente
segue em frente sem aprumar
adiante navega por navegar

o barco está solto ao mar
balança cansado mas segue
enquanto o tempo se perde
e a vida ainda tenta remar


primavera uma vez #5


ESCUTANDO O INVISÍVEL

preferi o caminho da música
porque dançar não faz sentido
e o balançar surge do silêncio
que movimenta a espontaneidade


assim como se nada #2


DESABAFO DE UM MORTO
imagem de jacques-jouis david



Estou de luto por minha morte. Faz exatamente vinte e sete anos, dez meses e cinco dias que morri. Desde então ando vagando por aí, por aqui, falando, escrevendo, buscando percorrer o caminho da inexistência sem tropeçar.

Nunca me culpei por demorar tanto a nascer de novo. A casca desse ovo se forma muito devagar. O nascimento em si, o além da gestação já é mais rápido. É como um túnel sugando para um lugar inevitável. Não lembro bem de como foi minha morte, sei apenas que estou de luto.

Lutar mesmo eu não luto. Estou de luto simbolicamente. No lugar da luta eu prefiro a dança, parece ter mais semelhança com a real essência da vida. Pois bem, para fins de esclarecimento estar morto não é lá tão ruim assim. Eu ainda tenho idéias. Ainda ajudo a criar o mundo, os mundos e todas suas dimensões. Minhas ações talvez não sejam vistas na prática, mas na teoria com certeza vêm dando sua devida contribuição.

Olhando por uma perspectiva mais lógica, relativa e holística poderíamos inclusive afirmar que cada ação realizada por cada ser, por mais ínfima e irrisória que possa parecer, é em si um ato positivo. Para se aprofundar no motivo que me leva a dizer isso precisaríamos de uma vida pela frente. Como estou morto, isso infelizmente não vai ser possível.

Sabe o que é mais incrível nessa vida de morto? A dor. Ela dói menos. Ainda não sabemos exatamente porque é assim, mas posso garantir que estamos pesquisando e trabalhando muito para explicar isso melhor. Alguns estudos realizados por aqui vêm apontando que a dor dói menos devido ao desapego, ao desprendimento e à falta de identificação com as realidades que a projetam.

No mundo do morto, o amor é maior do que tudo. Maior inclusive que o luto. O meu mais absoluto luto, por exemplo, passa por baixo do meu mais decadente amor. Portanto.

Mesmo assim o luto continua. Ainda estou puto com minha morte. Sinceramente até agora não superei o ocorrido. Tenho absoluta certeza que se alguém tivesse me socorrido eu não estaria aqui. Mas já que estou vou aproveitar, no sentido mais metafórico da palavra. Deitar, levantar, descansar, passar o tempo.

Tenho muita coisa para fazer. Não pense que estar morto é moleza. Aqui não tem empresa, capital, nem estado, mas todo o tempo da vida do morto está reservado para uma infinidade de ofícios maiores. “Melhores dias virão” é o lema da nossa cartilha.

Depois da morte, apesar do luto, tenho que confessar: não é o que eu aparentar, mas sim o que eu sou.*


* Não é o que eu nominar, mas sim o que eu indico.


primavera uma vez #4


A GIGANTESCA MONTANHA DE PEDRINHAS

entre eu e eu mesmo existe alguém
para me fazer multiplicidade

entre eu e esses eus existem outros
mas números não sabem contar

eu sou um só que me fiz vários
e me perco na minha dimensão
porque vou além dela naturalmente
como objetivo de vida e morte

ou era tudo mais uma fantasia


tolice #7


POEMA EM SOL MAIOR

deixar para trás
todo o desnecessário
cada formato ultrapassado
tudo que não cabe mais em você

surgir assim um raro
um único
uma forma própria de agir
um caminho luz

então simplesmente seguir
ver brotar claramente


assim como se nada #1


É CADA UM QUE ENCONTRAMOS POR AÍ
imagem de autor desconhecido



Você precisa de um bom motivo pra ganhar minha atenção. Eu não te dou nenhum. Ao menos por enquanto. E seguimos assim, cada um com suas opções. Quem vai abrir mão primeiro?

É uma boa pergunta. Mas partamos do princípio que essa primeira resistência de ambos, ou, melhor dizendo, divergência, para chegar mais próximo do ponto cume de toda nossa discussão, é o que temos como essencial, matéria-prima para darmos início a este trabalho. Nos cabe definir agora um ponto de partida, um ponto de congruência entre os termos expostos.

Sejamos francos, vai ser difícil chegar a um acordo que corresponda perfeitamente bem à expectativa de qualquer uma das partes, sempre tão exigentes e detalhistas. Então esse é o nosso ponto, é daqui que começamos.

Eu deveria mudar, você deveria mudar ou somos nós que deveríamos? Não vamos prolongar essa conversa muito mais do que aparenta que já vai se prolongar. Portanto, tentemos ao máximo (tudo bem, eu sei de toda nossa imensa dificuldade quando o tema é foco) ser claros e objetivos em nossos pontos-de-vista. Depois a gente decide quem vai pagar a conta.

Agora, me fala: quais são os seus planos? Não é isso que todos perguntam? O que supostamente você tem em mente? Peraí, olha pra mim. Você quer mudar de assunto, eu sei. Tudo bem, não vai ser a primeira nem a última vez. Você gosta disso, né? Mudar o rumo da discussão quando algum ponto delicado é indesejosamente tocado.

Eu conheço esse seu lado, essa sua fraqueza, ou, com mais respeito, essa sua reserva para determinados assuntos. Aliás, não sei porquê, mas sinto que nos conhecemos muitíssimo bem. Desculpa, não vamos nos fixar nisso agora. Isso é papo para uma outra história.

Pois bem, seguindo em frente, rumo ao nosso objetivo tão repleto de subjetividade, deve haver algum motivo para estarmos aqui juntos. Dizem que nada é por acaso, que temos algo a fazer aqui, que cada um de nós está interconectado e se influenciando mutuamente, mas quem vai dar bola pra essas pessoas que dizem?

Dizem de tudo por aí. Já disseram inclusive, se você não sabe, que não deveríamos estar perdendo tempo aqui, que há muito o que fazer. Por aí você tira.

Bem, mudando completamente de assunto, pra não perder o costume e nem o fio da meada que a gente vinha traçando sem se dar conta, mas vinha, escuta essa proposta: que tal desenvolvermos uma parceria? Você faz sua parte e eu faço a minha!

Foi uma idéia que eu tive pra darmos um fim ao nosso ponto de partida. Ou melhor, que nós tivemos juntos, afinal ninguém mais aqui sabe quem é quem, né.

Peraí. Que parte você não entendeu, a que eu falo da parte ou quando falo de nós? Eu posso ser mais direto sim, com certeza, seja feita a vossa vontade, assim na merda como no mel, seja posta a vossa mesa, vossa alteza: vamos nessa!

Compreendeu? Fácil eu sei que não vai ser, ninguém aqui prometeu um mar de rosas sem espinhos. Convenhamos, fazer uma parceria funcionar é tão duro quanto manter qualquer relação de pé.

Apesar de tudo, não podemos negar, uma parceria como essas seria um bom motivo. Não pra ganhar minha atenção, nada a ver, definitivamente, longe disso. Nosso interesse nunca foi coisa esse.

Talvez a resposta pra essa pergunta esteja mais próxima daquele sorriso que só vamos dar depois de algumas outras páginas.



 
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