É POR ESSAS E OUTRAS QUE SIMPATIZO COM O EMPATE
imagem de autor desconhecido
São 23h20 em Natal, Rio Grande do Norte. Agora estou parado no trânsito, banco de trás do carro, pegando carona com um casal de amigos. O trecho é a Roberto Freire, uma das avenidas mais importantes da cidade. E o trânsito está engarrafado não apenas porque o futebol é um esporte popular, lucrativo e atrai multidões. Uma partida acabou de acabar e consagrou um tradicional time da cidade como vencedor do episódio. O que não foi suficiente para diluir o ódio de toda aquela gente que adora uma briga por “amor" à camisa. É claro que eles estão presentes, fazendo suas caretas, mantendo o costume de inventar inimigos na vitória ou na derrota.
Olho pra frente, tudo parado. Tudo que andamos: dez metros. No mesmo olhar capturo o trio, esbanjando eletricidade, com suas tipologias de néon e sua velocidade de tartaruga. Ao redor, uma caravana e uma cambada de gente vestindo a mesma camisa branca e preta. A música não é o axé, mas sim um daqueles subprodutos da moda que o axé lançou, com rimas pobres e melodias repetidas. É, o pior da Bahia continua trazendo alegria pra moçada daqui. O rapaz ao meu lado, já fora do carro, aproveita o engarrafamento pra dançar, comemorando a vitória do mais querido, um tal de ABC, seu time de coração. A avenida está congestionada com o aval das autoridades e o motivo é um jogo de futebol? Não, claro que não. O único motivo desse carnaval é o desrespeito que existe entre nós mesmos. "Se você não tá a fim de comemorar com a gente, o problema é seu!", esbraveja alguma voz desconhecida que conseguiu alcançar meu subconsciente. Capaz ser um reflexo do pensamento conjunto de todos os torcedores, como em reação à minha crítica que começava a se espalhar.
Já se passaram dez minutos e continuamos em ritmo de lesmas. Ali tem dois garotos se aproveitando do fuzuê e pedindo um trocadinho pra quem aparece no caminho. Aproximam-se de um carro, fazem cara de mau, querendo botar medo, mas não conseguem nada. Desaparecem da minha vista, dando lugar ao motorista de um carro vizinho que grita alguma coisa pra caminhonete da frente. O cara da caminhonete abre um isopor, pega duas latinhas e leva até ele. O motorista só queria umas cervejinhas pra curtição não acabar. Outros se satisfazem buzinando, apertando e soltando a buzina repetitivamente, freneticamente, alopradamente, como se assim pudessem aliviar uma vontade de gritar, de extravasar e exteriorizar o êxtase descomunal gerado pela vitória de um jogo. A buzina deve ter alguma relação bem estreita com a debilidade mental do homem. (Explico melhor esse ponto no próximo capítulo.)
Fico pensando no que faz tanta gente alimentar a indústria do futebol. Comprar camisa, comprar ingressos, passar duas horas sentado pra ver onze homens disputarem com outros onze o destino de uma bola solitária, feita de couro, que nasceu pra levar bico na bunda. Qual é a graça exatamente, ganhar? Mas ganhar o que: um motivo de usar a camisa do time esbanjando orgulho ou uma oportunidade de tirar onda com quem perde, celebrando a derrota alheia como se fosse a coisa mais divertida do mundo? Ou a graça é apenas ter um motivo pra beber, encontrar a galera e paquerar?
Não, não, nada disso. O que eles gostam são os gols e os dribles maravilhosos dos jogadores apaixonados pelo que fazem e são mestres na arte de dominar a bola. Mentira. Se eles gostassem mesmo disso, estariam assistindo algum especial da copa de setenta ou coisa parecida, não por nostalgismo, mas sim pela mais sincera admiração ao espetáculo, e também porque a arte da bola é algo bastante diferente do que costuma acontecer na maior parte dos estádios de futebol. Tudo bem, isso não vem tanto ao caso. Por outro lado, devo admitir: todos merecem a liberdade de ir ao estádio, torcer, se orgulhar ou se matar porque o time perdeu uma decisão de campeonato.
A paixão que se torna doentia acaba se tornando um problema social. Quem tem o direito de interromper o fluxo de uma avenida tão movimentada e importante, utilizada por todos, para fazer uma festa, que nem todos fazem parte? Por justiça, ninguém. Mesmo assim, a avenida continua praticamente estagnada. É a consequência de uma mentalidade egoísta, onde o respeito ao próximo é encarado como romantismo barato. Olho pro lado e vejo um torcedor jogando mais uma lata de cerveja no chão. E tome lixo! Os incomodados que catem, ou esperem a limpeza pública passar, porque eles estão bem ocupados comemorando. E sujando. O clima tô-cagando-e-andando é generalizado e tomou conta do lugar. Perdoem o linguajar, mas a coisa definitivamente está fedendo por aqui.
Consulto o relógio e são 23h50. Demorou bastante para atravessarmos pouco mais de meio quilômetro. Acabamos de pegar um retorno, nos livramos da confusão, estamos quase de volta pra casa. Mas antes cruzamos com um carro quebrado no centro do meio fio. Provavelmente seu motorista perdeu a paciência com a música do trio, o engarrafamento gigantesco, os torcedores fanáticos e decidiu tentar atravessar antes do retorno, passando por cima do canteiro. O que não deu certo, obviamente. Minha dúvida é: será que ele torcia pra outro time?
conta outra #4
tolice #5
CASTELO DE AREIA
Indo ou não
a volta é certa,
na vã descoberta
entre nada e tudo.
Revolta então
que assim se faz.
Reviravolta sim:
cada novo conta,
aponta e confronta.
Transgredir é ser.
Permitir o fim,
do início ao já.
Ganhar de perder
por viver sentir.
Vindo ou não
o destino acerta.
conta outra #3
DUAS CORDAS, UM NÓ E CINCO PARÁGRAFOS
imagem de autor desconhecido
Houve um certo tempo situado num passado não tão remoto assim em que um importante acordo foi firmado entre duas cordas. A intenção do tratado era manter ambas amarradíssimas na curiosa idéia de nunca permitir a distância se aproximar. O acordo foi batizado de Nó Cego, pois suas criadoras faziam questão de ver o nome como melhor definição da parceria pela busca de tornar real a impossibilidade das partes se desatarem. Então as esperançosas cordas começaram a viver nesse Nó Cego com tamanho entusiasmo e vontade e ousadia e força e desejo suficiente para não chegar nem perto de se deixar levar pelo perceber de que o entrelaçamento era nada mais nada menos que o próprio resultado do simples ato de se atrair e atar.
Juntas elas sentiam o mesmo calor, compartilhavam a mesma casa, a mesma tenção, a mesma ilusão, o mesmo sentimento, corpo, momento, fome. Em forma de uma única corda elas experimentavam o que pensavam ser a superioridade e verdade plena da totalidade única, a maravilhosa sensação de unicidade que até então desconheciam. Acreditavam piamente que através do Nó Cego estavam repletas, completas, prontas e dispostas a se apertarem eternamente uma contra a outra com uma intensidade progressiva a destino de uma união sempre crescente. As cordas coexistiam satisfeitas e completamente certas de que o sentido de suas vidas era ser uma só vida sem fim, separação e diferença, com o propósito maior de se enrolar e desenvolver unicamente em torno de si mesmas.
Porém o desenrolar dos fatos, dos dados, dos dias e mudanças, fez a história tomar novo rumo. Depois de tão querido, almejado e valorizado, o Nó Cego de repente começava a enfraquecer, cansar, ganhar desânimo, perder rigidez, desandar, se tornando não mais um nó firme e resistente, mas sim um incômodo nó na garganta das duas cordas. De sonho, paraíso e paixão, o elo que tanto uniu as duas se transformava gradualmente numa fonte geradora de consecutivos imbróglios e quiproquós. Nesse ponto as cordas já haviam aceitado definitivamente a partida da cegueira. A inocência pegava carona e também se despedia. O nó que as prendia finalmente insinuava energicamente o que elas tentaram insistentemente evitar admitir: desatar era um futuro possível e iminente.
No lugar da cegueira que ocultava os problemas, minimizava as incongruências e fazia pouco da incompatibilidade, tomava espaço uma lucidez tremenda, luz insaciável, obstinada e decidida, que iluminava as cordas, elucidava as dobras e penetrava fundo na ilusão que ainda mantinha aquele dois em um. A retração foi instantânea. Como que institivamente, como se não pudesse ser diferente, as cordas cederam e se afrouxaram imediata e rapidamente. Soltas voltaram a ser dois. Duas cordas novamente livres. Tomaram a direção oposta, cada uma para um lado, em sentido e velocidade contrários ao movimento que as amarrou e prendeu. O que foi nó se fez pó dentro do vento e assim um ponto final.
Até hoje não se sabe exatamente como aquele vinho virou água, como surgiu luz daquela escuridão, como da noite para o dia o Nó Cego passou a enxergar. Sobraram comentários e boatos. Um deles conta que as duas cordas, já refeitas, recuperadas, renascidas e renovadas, continuam sós por aí, jurando que os nós existem somente para criar proximidade onde a distância nunca vai deixar de existir.
primavera uma vez #1
PALAVRÓRIO
o que falar
quando o que há é nada
quando tudo é o que não há?
o que há para falar
se as respostas só perguntam
se perguntas não sabem responder?
falar de quê
tão fora de contexto
sem pretexto nem idéia?
por que falar
tão longe de algum nexo
sem razão predefinida?
tolice #4
CO(R)PO
você é seu recipiente
você é também sua bebida
você é um copo pela metade
você é um copo cheio ou vazio
você não é de vidro nem alumínio
você não é de plástico nem madeira
você não é um copo qualquer
você é um copo seu
e como é
um corpo que é copo
um copo que é corpo
carrega a bebida
serve a bebida
é bebido
é embebedado por si mesmo
é tão líquido quanto é copo
é tão copo quanto é corpo
é você enquanto for sede
é sede enquanto for vida
conta outra #2
O QUE É PERMITIDO EM MACHU PICCHU?
(OU: AGUAS CALIENTES TIENE AGUAS CALIDAS)
imagem de autor desconhecido
Eu tenho uma caneta à mão para registrar os pensamentos, dar alguma forma ao que habita meus sentidos. Abro mão dos meus ouvidos, e aqui isso é possível. Numa ensalada de castellano peruano encharcada of an english bad-talked eu me encontro neste momento. Tudo bem que meus sentidos estão muito além dos meus ouvidos, mas é impossível deixar de escutar as famosas risadas japonesas ocupando cada canto deste lugar. Tal qual o som do trem, sempre obediente e presente, indicando a boa vontade que as máquinas daqui têm de trabalhar.
Quando finalmente me liberto dos ouvidos, vejo o mundo ao meu redor. Não fosse o conforto da minha companhia seria mais difícil desfrutar deste lugar. Então respondo a pergunta que viria: por que é tão difícil desfrutar deste lugar? Talvez porque este lugar está impregnado de leis injustas, de ordens descabidas, de controle ininterrupto, de uma atmosfera sufocante, como todo e qualquer lugar impregnado de homens.
A pergunta da vez, agora, aqui, é: o que é permitido em Machu Picchu? Talvez pagar guias com dólares, talvez take some pictures, talvez seguir em frente, sim ou sim, talvez comer algumas frutas correndo o risco de ser pego (porque aqui comer, acreditem, é proibido), talvez olhar para algum lugar bem distante. Talvez anotar algumas palavrinhas.
Quando voltei aos outros sentidos, eu percebi o incenso. Quanto ao tato e ao paladar, deixei ambos pro jantar. Como alguém já deve ter dito: a paz está longe dos homens.
